Este blog pretende, através de textos, imagens, e demais possiblidades, refletir o mundo ao nosso redor, sempre com o intuito de desenvolver o melhor que há em nós, para contribuir, para refletir e transformar o nosso entorno, através da politica, da filosofia, buscando sempre a alteridade, o respeito às diferenças, como forma de alcançar este intento.Um abraço, Cláudio.
domingo, 27 de outubro de 2013
DEFICIÊNCIAS
Passei boa parte da minha vida, tentando superar minha deficiência, fazendo tudo que as pessoas "normais", faziam e dizendo a mim mesmo: VOCÊ É MAIOR QUE A SUA DEFICIÊNCIA. Bobagem a minha. Nos superarmos como pessoa é mil vezes mais difícil. Superar dores, frustrações , ciclos que não se fecham, é um caminho muito mais pedregoso. Acabei concluindo, que a minha deficiência, fez de mim a pessoa que sou, e me deu ferramentas extras para trilhar esse caminho. E é com ela que eu vou me descobrindo, mesmo com alguma dor, pois é inerente a natureza humana. Não tenho que ser maior que ela, ela é minha companheira de viagem.
Foto: Passei boa parte da minha vida, tentando superar minha deficiência, fazendo tudo que as pessoas "normais", faziam e dizendo a mim mesmo: VOCÊ É MAIOR QUE A SUA DEFICIÊNCIA. Bobagem a minha. Nos superarmos como pessoa é mil vezes mais difícil. Superar dores, frustrações , ciclos que não se fecham, é um caminho muito mais pedregoso. Acabei concluindo, que a minha deficiência, fez de mim a pessoa que sou, e me deu ferramentas extras para trilhar esse caminho. E é com ela que eu vou me descobrindo, mesmo com alguma dor, pois é inerente a natureza humana. Não tenho que ser maior que ela, ela é minha companheira de viagem.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Leia a íntegra do discurso de Luiz Ruffato na abertura da Feira do Livro de Frankfurt
Escritor ataca questões como desigualdades sociais, impunidade, homofobia e outros problemas do País
08 de outubro de 2013 | 19h 15
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Em seu discurso de abertura na Feira do Livro de Frankfurt, o escritor Luiz Ruffato fez uma pesada crítica as desigualdades sociais brasileiras. Entre outras questões, falou do passado escravagista, de violência, da população carcerária e de homofobia. Leia a íntegra do discurso a seguir:
Veja também:
link Escritor critica desigualdade no Brasil e divide opiniões em abertura da Feira de Frankfurt
O escritor Luiz Ruffato - Divulgação
Divulgação
O escritor Luiz Ruffato
"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora? Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século 21, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas. Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças.
O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro --é a alteridade que nos confere o sentido de existir--, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas - ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados e levados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, artistas plásticos, cineastas, jornalistas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania --moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade--, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios --o semelhante torna-se o inimigo.
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução.
O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais --ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia - são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década. Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, e sim privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo --amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão de obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro --seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual-- como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir. Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra. Aqui e agora."
fonte:http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,leia-a-integra-do-discurso-de-luiz-ruffato-na-abertura-da-feira-do-livro-de-frankfurt,1083463,0.htm
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quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Uma madrugada no carrapateiro.
Uma madrugada no Carrapateiro Segunda-feira, 9 de setembro de 2013 às 7h 32 - Atualizado às 7h 46 - Por: Amilton Augusto Uma madrugada no Carrapateiro
Eles estão por todo lugar. Vagueiam pelas ruas ou se reúnem em grupos, muitos com roupas sujas, sem higiene pessoal e com olhar perdido, sem perspectiva de vida. É possível notá-los ao passar de carro pela ponte do bairro Niterói, ao cruzar a linha férrea ou simplesmente nas praças e nas principais ruas da cidade a procura de moedas. Mas, para muitos que ainda não entenderam a real situação, essas são pessoas invisíveis. São usuários de crack, a droga que mais avança no Brasil e que mais causa danos à saúde. Chegam a ser chamados de zumbis, por causa dos hábitos noturnos e pela aparência degradante.
Mas por trás de toda essa situação, ainda existe a condição humana, são pessoas, que embora sigam um caminho errante, sentem e sofrem com a degradação de sua existência e imploram por socorro.
A Gazeta do Oeste acompanhou a rotina do principal ponto de consumo de crack, o Carrapateiro (a cracolândia de Divinópolis), durante uma madrugada. As cenas reveladas atrás do pontilhão de ferro são assustadoras, mais lembram um hospital psiquiátrico sem paredes, nem médicos, apenas com os doentes mentais.
Acompanhamos também voluntários da Casa de Acolhimento Sacramento de Amor durante a distribuição da sopa aos dependentes químicos, conversamos com viciados que vivem na rua e ainda com recuperandos. A Gazeta do Oeste revela a partir de agora a realidade da madrugada do crack e explica porque é tão difícil abandonar o vício.
A Pedra
Estima-se que existe 1,3 milhão de usuários de crack no Brasil, segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, de 2012. O número não demonstra com precisão a realidade, pois leva em conta apenas quem tem residência fixa.
Apenas 15 é a média mensal de internação por transtornos mentais causados por álcool e drogas determinadas pela Justiça mineira. Aproximadamente 70 é o número de usuários contados por esta reportagem em uma única noite no Carrapateiro. Um contraste enorme entre usuários e a oferta de tratamento.
É impossível traçar um único perfil e uma única causa que leva a pessoa a entrar nesse submundo. Existem sujeitos de todas as esferas sociais, uns com formação superior, outras analfabetos, jovens e idosos, homens e mulheres (embora elas sejam a minoria).
Os fatores que os levam a entrar no submundo das drogas pesadas são diversos e em cada caso existe uma história diferente. Geralmente são histórias de vidas frustradas ou pessoas que não são aceitas por determinados grupos sociais. Desde uma simples necessidade de perder a timidez até para superar problemas como a morte, a separação e a fome podem ser causas que despertam esta patologia. É preciso lembrar que a pré-disposição genética do indivíduo é a fonte para entender porque o adicto sente tanta dificuldade para abandonar o vício e também que a adicção não é uma doença em si, mas um sintoma de transtornos mentais complexos.
Quando a cidade dorme
O início da peregrinação pela noite começou com o encontro dessa reportagem com um grupo de quatro voluntários da Casa de Acolhimento Sacramento de Amor, ligados à Igreja Católica. Os voluntários contam com a ajuda de outros que preparam um caldeirão de sopa de macarrão com legumes e oram em nome daqueles que seguem o trilho errado.
Depois das 22 horas o comboio sai pelos principais pontos de concentração de moradores de rua. A primeira parada foi atrás da UPA Central, onde 10 moradores, todos viciados em crack e alguns também em álcool passavam a noite.
Bastou que o carro estacionasse e eles foram aparecendo. O primeiro a demonstrar a satisfação pela acolhida foi o senhor Walner, conhecido como “pai da rua”. Eles se aglutinam e dão saudações aos voluntários, estampam o sorriso no rosto em forma de gratidão àquela atitude.
Senhor Walner, de 58 anos, cego de um olho, logo nos convidou a sentar em seu colchão e começou a contar sua história de vida, sem dar muito trabalho à reportagem. As informações, por ora, se desencontravam, mas o discurso foi coerente, com início, meio e fim, de forma objetiva e lúcida. “Eu sou conhecido como o “pai da rua”, todo mundo aqui na rua quando precisa de alguma coisa vem me procurar. Eu sei de tudo sobre essa vida e já adianto: na rua estamos sempre próximos da morte. Mas a minha história começa quando eu perdi o grande amor da minha vida, nunca mais vou me esquecer dela. Eu tenho tendência para o álcool. Você entendeu né? Sou alcoólatra e bebo todos os dias é como se fosse um remédio para curar as minhas dores, as minhas angústias e a minha mente. Mas voltando à minha história, eu tinha dois filhos com o meu grande amor, já trabalhei de empreiteiro de obra, já dei manutenção em equipamentos de pneumática, você sabe o que é isso? Pois é, eu era ótimo profissional nessa área, consertava máquinas. Um belo dia, eu estava ali na rua bebendo e usando química, quando alguém chegou e falou que ela tinha sido assassinada e desfigurada lá na ilha. Isso faz uns seis anos. Irmão, eu tive que ir no IML, era 9 horas da manhã, não me esqueço nunca mais, e vi ela com o crânio todo aberto, esse osso na testa estava todo para fora. Meu irmão, pensa numa dor, pensa num sofrimento... Pois é, esse sofrimento eu carrego ele até hoje. Depois disso eu fui morar na rua, me perdi nesse mundo, mas eu tenho fé em Deus que eu vou voltar para Ele”, lamentou.
Um pouco mais adiante, próximo ao campo de futebol do Flamengo, estavam mais outros sete usuários, mas neste momento estavam todos fazendo o consumo do crack. Era 23h e 40m quando seguimos até o Carrapateiro, local onde mais impressiona.
O caldeirão de sopa foi colocado em uma mureta e imediatamente apareceu o primeiro dizendo: “Opa, hoje eu vou ser o primeiro a tomar sopa!”. Foi como um aviso para que os outros quase 70 usuários fossem surgindo de trás das moitas, de baixo da ponte, atrás dos muros. Por quase duas horas, cidadãos relegados à margem da sociedade apareceram expressando suas loucuras das mais diversas formas.
A maioria é receptiva, conversa, abraça e implora por um minuto de atenção. Outros rodeiam a panela de sopa com a timidez de quem aguarda o convite para se sentar à mesa do banquete. As mulheres são mais bem cuidadas, fazem higiene pessoal e vestem boas roupas, tudo isso porque elas se prostituem por cinco ou dez reais e correm para o pontilhão para consumir a pedra. Assim elas passam a noite e a vida. São mais arredias, socializam pouco e não dá muito papo, tudo isso por causa da vergonha que sentem diante de suas condições.
Enquanto a sopa era servida as expressões de loucuras e transtornos eram evidentes. Duas mulheres trocavam de roupa em cima da ponte, enquanto outros apresentavam transtornos compulsivos, contrações musculares involuntárias e balbuciavam palavras indecifráveis. Nem todos são assim, há também aqueles que conheceram o submundo há pouco tempo e ainda trabalham, vestem boas roupas e ocupam um estágio do vício ainda inicial.
Diego, 24 anos, é natural de Betim e está no “trecho” (gíria utilizada para falar que está vagueando pelas ruas em várias cidades) desde os 20. Bastante alcoolizado ele nos recebeu com alegria e dizia. “Para mim tudo está bom. O álcool é uma coisa muito boa, quando a gente fica “chapado” tudo fica bom, não existe problemas. Para mim agora está tudo bem cara. Eu não quero essa vida para sempre, mas enquanto não existe outra maneira eu vou levando assim”, contou.
Assim como é característico em vários outros adictos que estão na rua, a vontade de se internar em uma casa de recuperação foi bastante citada por Diego. Diante de suas perguntas sobre o funcionamento da Casa de Acolhimento Sacramento de Amor, é notório que a vontade existe, mas a falta de informação e até mesmo de um acompanhamento sistemático impede que muitas vezes o viciado procure o tratamento por conta própria.
Diante dessa constatação é que se faz necessário uma estrutura mais bem preparada para tratar as centenas de usuários presentes em Divinópolis. Nesse caso, o programa Consultório de Rua, do Governo Federal, seria necessário para fazer todas as intervenções técnicas diretamente no local onde o usuário se encontra, antes de chegar a alguma clínica ou casa de recuperação.
Diego também se preocupou com sua ressocialização. “Fiquei sabendo que lá tem bichos, é verdade? Tem cavalo, boi, galinha... Tem tudo isso mesmo? Eu gosto de animais, cara. Também soube que todo domingo tem o futebol lá, né? Eu “to ligado”, tem uns camaradas meus aí que já passaram por lá. Posso ir lá num domingo a tarde jogar bola? Talvez até trocar uma palavra com outras pessoas que não estão na rua, porque aqui só tem idéias erradas, às vezes falar com pessoas que não estão nesse nosso mundo nos ajuda um pouco a aliviar a mente”, explicou.
Ao tentar explicar para ele como chegar à casa de recuperação que se encontra às margens da MG-050, o morador de rua afirmou que não conhecia nada em Divinópolis em seus dois anos de estadia na cidade. “Eu só conheço aqui atrás do hospital, o restaurante popular onde a gente pega uma água, almoça até ali na “pracinha da Savassi”, e ali indo para a ponte do Niterói, o resto não conheço nada, nunca saí daqui. É muito longe para chegar lá?”.
Preconceito
É possível que todos contribuam para que o problema das drogas pesadas, como o crack e o álcool (causa mais óbitos que as drogas ilícitas) diminuam, porém é preciso entender o funcionamento delas e, acima de tudo, compreender que a droga em si não é uma doença, mas a forma como problemas mentais complexos se expressam.
A maioria dos usuários reconhece o sofrimento diante da falta de vontade e de sentimentos para as coisas da vida. Perde-se o desejo até mesmo em tomar banho.
As saídas a serem tomadas pela população é, primeiro, deixar de contribuir com esmolas que serão trocadas por crack ou cachaça. A mudança de comportamento e da maneira de olhar também são peças fundamentais, pois os adictos são seres humanos com pouca e sem nenhuma afetividade desde sua infância e por isso precisaram encontrar na droga uma forma enganosa de conforto. Deixar o olhar segregador e excludente para trás é uma forma eficiente para encarar um problema que também é social e uma maneira humilde de reconhecer que todos, sem exceções, estão sujeitos a patologias mentais até mesmo mais graves.
Já o Poder Público, especialmente em Divinópolis, precisa agir com mais rapidez e eficiência na regulamentação das burocracias exigidas pelo Governo Federal para trazer a Divinópolis programas como o Consultório de Rua e o CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas).
Este último trata-se de uma clínica formada por psicólogos, médicos e assistentes sociais, que aplica um tratamento mais moderno e com atenção diferenciada ao usuário. Durante o tratamento o adicto aprenderá a conviver com seus problemas e terá orientações comportamentais. Nesse caso, a visão de que a droga é um mal indiscutível, passa a ser vista apenas como parte de um problema a ser controlado.
Sacramento de Amor
A Casa de Acolhimento Sacramento de Amor é uma instituição mantida por católicos leigos, desde 1997, quando começou com um trabalho de assistência aos moradores de rua.
Primeiramente o grupo de voluntários começou a distribuir café da manhã. Com a união de forças, uma casa foi alugada e desde então, deu-se início também a uma casa de recuperação de pessoas viciadas em drogas.
Atualmente 40 homens estão internados na casa, destes, quase todos enfrentam problemas com o álcool e o crack, exclusivamente. A fila de espera atual é de 50 pessoas. Para entrar na casa o usuário deve ter vontade própria e passar por uma triagem. Psicólogos, assistentes sociais, educador físico, enfermeiras e fisioterapeuta dão assistência direta aos internos.
Embora a casa de acolhimento consiga recuperar algumas pessoas, Eduardo Moreira, fundador e coordenador geral, salienta que somente com a instalação de um CAPS AD em Divinópolis o tratamento de todas as casas de recuperação terão mais eficiência. “Com uma clínica de recuperação mais bem preparada, com médicos, psicólogos, internações e medicamentos adequados nosso trabalho aqui nas casas de recuperação serão mais eficientes. Existem estágios do vício que uma casa de recuperação não é suficiente para o tratamento. É preciso um olhar mais direcionado, um tratamento com medicação”, explicou.
Osvaldo Cassemiro da Cunha, 40 anos, é da cidade de Camacho e mora na casa de acolhimento há 2 anos. Desde os 12 foi para o “mundão” e até então passou por seis internações. “Eu saí de casa muito cedo, pedia dinheiro na rua, olhava carro, fazia bicos para conseguir sobreviver. Não tinha família, era abandonado. Rodei por São Paulo, Mato Grosso, Goiás e cheguei em Divinópolis. Só aqui eu morei por 8 anos, na porta do Santuário. Usei todo tipo de droga que a rua me ofereceu. Mas hoje, graças a Deus, estou limpo há 2 anos. Entendeu? Quero dizer que faz dois anos que não uso nenhuma droga. Agradeço imensamente o Eduardo, do Sacramento de Amor, ele fez por mim aquilo que meu pai não fez. Mesmo depois de ir e voltar seis vezes ele nunca desistiu de mim, sempre acreditou na minha recuperação. A partir dessa semana estarei indo para Itaúna, onde o Sacramento de Amor está fazendo um novo trabalho e eu vou lá para colaborar com eles. Só pretendo sair dessa casa no caixão”, finalizou.
terça-feira, 25 de junho de 2013
Devemos acompanhar todas estas manifestações, com reflexão, atenção, mas com o bom senso aguçado, para que não sejamos levados, por pessoas, grupos politicos, religiosos,e demais grupos, que de alguma forma, são formadores de opinião, e a utilizam para defenderem interesses, nem sempre dignos. Vamos fazer deste momento, uma prática reflexiva, no sentido de buscarmos justiça social, cuidado com impostores, que em momentos como esses, se arvoram nos donos da verdade. O fato é que chegamos em um ponto de onde não podemos recuar, temos que fazer uma sociedade melhor, e isso começou a acontecer quando as pessoas foram às ruas manifestarem seu desagrado, sua indignação, sua insatisfação, com toda a bandalheira, que está aí há séculos, e agora queremos que acabe. Então amigos, é disto que se trata, de enfrentarmos todas as nossas mazelas politicas e sociais, e aqueles que em função de serem agentes politicos e todas as Instituições Politicas, Publicas, tem sim, que darem respostas urgentes, no sentido de tornarem realidade os desejos, que são do POVO. DIREITOS DO CIDADÃO E DEVER DO ESTADO, POR UMA NOVA CONSTITUINTE, PELA REFORMA POLITICA. Um abraço a todos. Cláudio.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Vergonha Nacional
Vamos refletir?Um abraço.
VERGONHA NACIONAL
"De olho na Copa e nos dividendos eleitorais, os senhores da guerra se preparam para “limpar as ruas”; é disto que se trata."
Marcos Rolim*
O Brasil corre o grave risco de ter uma nova Lei de drogas que irá representar um retrocesso de décadas. O PL 7663, apresentado pelo deputado Osmar Terra (PMDB/RS), e seu substitutivo estão prontos para serem votados, já com urgência aprovada. Embora existam notas técnicas dos ministérios da Saúde e da Justiça contrárias ao projeto, o Governo Federal já sinalizou seu apoio e deve mesmo abraçar o discurso demagógico da “guerra contra as drogas”. Em torno da política de drogas, o que se está formando no Brasil é uma aliança reacionária entre a psiquiatria tradicional, a bancada evangélica e a direita política, com as bênçãos da presidente Dilma e do PT.
Tanto o PL como seu substitutivo insistem no tema das internações forçadas dos dependentes químicos. A necessidade viria daquilo que eles denominam “epidemia do crack”. Trata-se de ênfase manipulatória, porque as internações involuntárias e compulsórias já existem no Brasil, estão regulamentadas na Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei nº 10.216/2001) e são praticadas rotineiramente também para casos graves de drogadição. O que ocorre é que os defensores da “Guerra contra as Drogas” precisam se desembaraçar das garantias asseguradas aos pacientes pela Lei 10.216/2001, que surgiu pela pressão do movimento da luta antimanicomial e que impede as perspectivas higienistas. Como bem assinalou o Conselho Federal de Psicologia em seu parecer sobre a matéria (confira aqui), o que o deputado Terra e seus parceiros desejam é assegurar a política que Mássimo Pavarini chamou de “sequestro institucional”. De olho na Copa e nos dividendos eleitorais, os senhores da guerra se preparam para “limpar as ruas”; é disto que se trata.
Caso a matéria seja aprovada, teremos uma lei que trata – todo o tempo – usuários e dependentes como se ambos merecessem a mesma política pública. Reforçando um discurso autoritário e sem qualquer base cientifica, o PL desconhece a abordagem de redução de danos – a mais empregada em todo o mundo no tratamento de dependências de drogas pesadas, como a heroína, por exemplo - e estabelece como única orientação a abstinência, inclusive propondo o desligamento dos programas de atenção daqueles que reincidirem no uso de drogas. Ao mesmo tempo, assegura que se não houver leitos adequados, as internações serão efetuadas pela rede privada e a conta enviada para o setor público. Os donos das clínicas e hospitais psiquiátricos privados, é claro, agradecem emocionados.
O projeto ainda aumenta a pena mínima para o tráfico de drogas de cinco para oito anos e estabelece causas para o aumento da pena que irão produzir, rapidamente, nova onda de encarceramento, sem qualquer efeito no combate ao tráfico que repõe seus “funcionários” com enorme facilidade e rapidez. Segundo os dados do Departamento Penitenciário Nacional, os condenados por tráfico de drogas já são o maior grupo entre os presos no Brasil, alcançando, em alguns estados, 1/3 da massa carcerária. Que resultados esta quantidade enorme de prisões produziu no combate ao tráfico de drogas? Por acaso diminuiu o volume dos negócios ou a oferta de drogas ilícitas?
O substitutivo ao PL 7663 consegue a façanha de ser pior que o original, chegando ao absurdo de propor um sistema de delação que obriga os professores a comunicar suspeição sobre usuários de drogas; algo que nem a ditadura militar teve o desplante de propor. Os responsáveis por esta montoeira de bobagens e ameaças estão, também, interessados nos fartos recursos que o Governo Federal irresponsavelmente pretende derramar nas chamadas “Comunidades Terapêuticas”. Assim, a aliança em favor do retrocesso se fecha e nos anuncia um cenário onde ignorância e desgraça se misturam com o ridículo e a falta de escrúpulos.
*Jornalista e sociólogo, professor da Cátedra de Direitos Humanos do IPA, consultor em segurança pública e ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
sábado, 19 de janeiro de 2013
O que acontece em Goiânia, com os moradores de rua, assume características de higienização social, coordenada por grupos financiados pelo comercio local, mas está claro que essas mortes interessam a uma sociedade que se acostumou a ver essas pessoas, como uma especie animal repulsiva, que causa asco e principalmente desprezo.Os Direitos Humanos, parecem não se aplicar a esses animais, pois humanos não são, aos olhos de boa parte da sociedade, que conscientemente aprova e até legitima a limpeza social, o varrimento das ruas desse "lixo humano" talvez em pouco tempo, faça parte parte oficialmente do serviço municipal de limpeza urbana.
Chocante? Não parece. De alguma forma, somos todos coniventes, já que nem protestar, protestamos, salve ongs, pessoas, que são verdadeiras ilhas, se comparadas a omissão do restante da sociedade e do Estado, que deveria proteger e mais, solucionar o problema, dando a essas pessoas, oportunidade de mudarem suas vidas, visto ser responsabilidade do Estado proteger e garantir a vida digna de seus cidadãos, ah, me esqueci, eles não são cidadãos, não é mesmo?
Sem me detalhar em leis, convenções sobre direitos humanos, que dizem respeito a dignidade humana, direito à vida. Sem abordar aspectos espirituais, religiosos, sobre a questão, o que mais impressiona, foi a condição em que chegamos de não reconhecer os da nossa própria especie.
Onde o senso de justiça?Do certo e do errado?
Façamos o que estiver ao nosso alcance para demonstrar que a humanidade pode e deve ser renovada, melhorada.Há moradores de rua em todas as cidades do Brasil.É a miséria, são as drogas. As causas são muitas.Nosso compromisso com os da nossa especie, deve vir em primeiro lugar.Por mais que os outros animais mereçam de nós, toda atenção e amor, não cheguemos ao ponto de ter que criarmos a Sociedade Protetora dos Animais Humanos.
Boa reflexão, Cláudio.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Ainda existe vida inteligente no Brasil !!? Depende de nós como vemos o mundo que nos rodeia. É possível fazer diferente, sair da mediocridade e da mesmice, da imbecilidade geral.
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Douglas Corrêa
Repórter da Agência Brasil
Rio de Janeiro - O prefeito de Petrópolis, na região serrana do Rio, Rubens Bomtempo, anunciou que não haverá carnaval na cidade e que os repasses, no valor de R$ 1 milhão, que iriam para o desfile das escolas de samba do município, serão investidos na saúde. A decisão foi tomada durante reunião com o presidente da Fundação de Cultura e Turismo, Juvenil dos Santos, e representantes de escolas e blocos da cidade, que entenderam a situação e concordaram com a providência do governo municipal.
De acordo com o presidente da Fundação de Cultura e Turismo, estruturas como as arquibancadas, por exemplo, não serão montadas, o que não impede que os blocos que queiram sair às ruas desfilem pela Rua do Imperador.
“Não estamos cancelando o carnaval da cidade, só não iremos repassar os recursos, que serão encaminhados para um setor que está em estado de calamidade e precisa de todo o empenho e recursos financeiros. Estamos pensando no bem-estar da população. Tivemos a adesão espontânea das agremiações”, disse Santos.
Outros tradicionais eventos, como o Baile dos Fantasmas e o Banho a Fantasia, estão mantidos, assim como os bailes que ocorrem nos bairros, como Alto da Serra, Praça Pasteur e Pedro do Rio. A Matinê no Obelisco também está mantida. Para garantir a segurança dos foliões que forem para a avenida durante o carnaval acompanhar os blocos, a Guarda Municipal e as polícias Civil e Militar estarão nas ruas.
A diretora de patrimônio da Escola de Samba Independente de Petrópolis, Marilda da Silva Antunes, elogiou a medida tomada pelo prefeito Rubens Bomtempo. “A saúde do município está um caos e precisa de todo o apoio. Não é justo realizarmos uma festa, enquanto os hospitais estão sem leitos e sem remédios”.
Edição: Fábio Massalli
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