quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Uma madrugada no carrapateiro.

Uma madrugada no Carrapateiro Segunda-feira, 9 de setembro de 2013 às 7h 32 - Atualizado às 7h 46 - Por: Amilton Augusto Uma madrugada no Carrapateiro Eles estão por todo lugar. Vagueiam pelas ruas ou se reúnem em grupos, muitos com roupas sujas, sem higiene pessoal e com olhar perdido, sem perspectiva de vida. É possível notá-los ao passar de carro pela ponte do bairro Niterói, ao cruzar a linha férrea ou simplesmente nas praças e nas principais ruas da cidade a procura de moedas. Mas, para muitos que ainda não entenderam a real situação, essas são pessoas invisíveis. São usuários de crack, a droga que mais avança no Brasil e que mais causa danos à saúde. Chegam a ser chamados de zumbis, por causa dos hábitos noturnos e pela aparência degradante. Mas por trás de toda essa situação, ainda existe a condição humana, são pessoas, que embora sigam um caminho errante, sentem e sofrem com a degradação de sua existência e imploram por socorro. A Gazeta do Oeste acompanhou a rotina do principal ponto de consumo de crack, o Carrapateiro (a cracolândia de Divinópolis), durante uma madrugada. As cenas reveladas atrás do pontilhão de ferro são assustadoras, mais lembram um hospital psiquiátrico sem paredes, nem médicos, apenas com os doentes mentais. Acompanhamos também voluntários da Casa de Acolhimento Sacramento de Amor durante a distribuição da sopa aos dependentes químicos, conversamos com viciados que vivem na rua e ainda com recuperandos. A Gazeta do Oeste revela a partir de agora a realidade da madrugada do crack e explica porque é tão difícil abandonar o vício. A Pedra Estima-se que existe 1,3 milhão de usuários de crack no Brasil, segundo o Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, de 2012. O número não demonstra com precisão a realidade, pois leva em conta apenas quem tem residência fixa. Apenas 15 é a média mensal de internação por transtornos mentais causados por álcool e drogas determinadas pela Justiça mineira. Aproximadamente 70 é o número de usuários contados por esta reportagem em uma única noite no Carrapateiro. Um contraste enorme entre usuários e a oferta de tratamento. É impossível traçar um único perfil e uma única causa que leva a pessoa a entrar nesse submundo. Existem sujeitos de todas as esferas sociais, uns com formação superior, outras analfabetos, jovens e idosos, homens e mulheres (embora elas sejam a minoria). Os fatores que os levam a entrar no submundo das drogas pesadas são diversos e em cada caso existe uma história diferente. Geralmente são histórias de vidas frustradas ou pessoas que não são aceitas por determinados grupos sociais. Desde uma simples necessidade de perder a timidez até para superar problemas como a morte, a separação e a fome podem ser causas que despertam esta patologia. É preciso lembrar que a pré-disposição genética do indivíduo é a fonte para entender porque o adicto sente tanta dificuldade para abandonar o vício e também que a adicção não é uma doença em si, mas um sintoma de transtornos mentais complexos. Quando a cidade dorme O início da peregrinação pela noite começou com o encontro dessa reportagem com um grupo de quatro voluntários da Casa de Acolhimento Sacramento de Amor, ligados à Igreja Católica. Os voluntários contam com a ajuda de outros que preparam um caldeirão de sopa de macarrão com legumes e oram em nome daqueles que seguem o trilho errado. Depois das 22 horas o comboio sai pelos principais pontos de concentração de moradores de rua. A primeira parada foi atrás da UPA Central, onde 10 moradores, todos viciados em crack e alguns também em álcool passavam a noite. Bastou que o carro estacionasse e eles foram aparecendo. O primeiro a demonstrar a satisfação pela acolhida foi o senhor Walner, conhecido como “pai da rua”. Eles se aglutinam e dão saudações aos voluntários, estampam o sorriso no rosto em forma de gratidão àquela atitude. Senhor Walner, de 58 anos, cego de um olho, logo nos convidou a sentar em seu colchão e começou a contar sua história de vida, sem dar muito trabalho à reportagem. As informações, por ora, se desencontravam, mas o discurso foi coerente, com início, meio e fim, de forma objetiva e lúcida. “Eu sou conhecido como o “pai da rua”, todo mundo aqui na rua quando precisa de alguma coisa vem me procurar. Eu sei de tudo sobre essa vida e já adianto: na rua estamos sempre próximos da morte. Mas a minha história começa quando eu perdi o grande amor da minha vida, nunca mais vou me esquecer dela. Eu tenho tendência para o álcool. Você entendeu né? Sou alcoólatra e bebo todos os dias é como se fosse um remédio para curar as minhas dores, as minhas angústias e a minha mente. Mas voltando à minha história, eu tinha dois filhos com o meu grande amor, já trabalhei de empreiteiro de obra, já dei manutenção em equipamentos de pneumática, você sabe o que é isso? Pois é, eu era ótimo profissional nessa área, consertava máquinas. Um belo dia, eu estava ali na rua bebendo e usando química, quando alguém chegou e falou que ela tinha sido assassinada e desfigurada lá na ilha. Isso faz uns seis anos. Irmão, eu tive que ir no IML, era 9 horas da manhã, não me esqueço nunca mais, e vi ela com o crânio todo aberto, esse osso na testa estava todo para fora. Meu irmão, pensa numa dor, pensa num sofrimento... Pois é, esse sofrimento eu carrego ele até hoje. Depois disso eu fui morar na rua, me perdi nesse mundo, mas eu tenho fé em Deus que eu vou voltar para Ele”, lamentou. Um pouco mais adiante, próximo ao campo de futebol do Flamengo, estavam mais outros sete usuários, mas neste momento estavam todos fazendo o consumo do crack. Era 23h e 40m quando seguimos até o Carrapateiro, local onde mais impressiona. O caldeirão de sopa foi colocado em uma mureta e imediatamente apareceu o primeiro dizendo: “Opa, hoje eu vou ser o primeiro a tomar sopa!”. Foi como um aviso para que os outros quase 70 usuários fossem surgindo de trás das moitas, de baixo da ponte, atrás dos muros. Por quase duas horas, cidadãos relegados à margem da sociedade apareceram expressando suas loucuras das mais diversas formas. A maioria é receptiva, conversa, abraça e implora por um minuto de atenção. Outros rodeiam a panela de sopa com a timidez de quem aguarda o convite para se sentar à mesa do banquete. As mulheres são mais bem cuidadas, fazem higiene pessoal e vestem boas roupas, tudo isso porque elas se prostituem por cinco ou dez reais e correm para o pontilhão para consumir a pedra. Assim elas passam a noite e a vida. São mais arredias, socializam pouco e não dá muito papo, tudo isso por causa da vergonha que sentem diante de suas condições. Enquanto a sopa era servida as expressões de loucuras e transtornos eram evidentes. Duas mulheres trocavam de roupa em cima da ponte, enquanto outros apresentavam transtornos compulsivos, contrações musculares involuntárias e balbuciavam palavras indecifráveis. Nem todos são assim, há também aqueles que conheceram o submundo há pouco tempo e ainda trabalham, vestem boas roupas e ocupam um estágio do vício ainda inicial. Diego, 24 anos, é natural de Betim e está no “trecho” (gíria utilizada para falar que está vagueando pelas ruas em várias cidades) desde os 20. Bastante alcoolizado ele nos recebeu com alegria e dizia. “Para mim tudo está bom. O álcool é uma coisa muito boa, quando a gente fica “chapado” tudo fica bom, não existe problemas. Para mim agora está tudo bem cara. Eu não quero essa vida para sempre, mas enquanto não existe outra maneira eu vou levando assim”, contou. Assim como é característico em vários outros adictos que estão na rua, a vontade de se internar em uma casa de recuperação foi bastante citada por Diego. Diante de suas perguntas sobre o funcionamento da Casa de Acolhimento Sacramento de Amor, é notório que a vontade existe, mas a falta de informação e até mesmo de um acompanhamento sistemático impede que muitas vezes o viciado procure o tratamento por conta própria. Diante dessa constatação é que se faz necessário uma estrutura mais bem preparada para tratar as centenas de usuários presentes em Divinópolis. Nesse caso, o programa Consultório de Rua, do Governo Federal, seria necessário para fazer todas as intervenções técnicas diretamente no local onde o usuário se encontra, antes de chegar a alguma clínica ou casa de recuperação. Diego também se preocupou com sua ressocialização. “Fiquei sabendo que lá tem bichos, é verdade? Tem cavalo, boi, galinha... Tem tudo isso mesmo? Eu gosto de animais, cara. Também soube que todo domingo tem o futebol lá, né? Eu “to ligado”, tem uns camaradas meus aí que já passaram por lá. Posso ir lá num domingo a tarde jogar bola? Talvez até trocar uma palavra com outras pessoas que não estão na rua, porque aqui só tem idéias erradas, às vezes falar com pessoas que não estão nesse nosso mundo nos ajuda um pouco a aliviar a mente”, explicou. Ao tentar explicar para ele como chegar à casa de recuperação que se encontra às margens da MG-050, o morador de rua afirmou que não conhecia nada em Divinópolis em seus dois anos de estadia na cidade. “Eu só conheço aqui atrás do hospital, o restaurante popular onde a gente pega uma água, almoça até ali na “pracinha da Savassi”, e ali indo para a ponte do Niterói, o resto não conheço nada, nunca saí daqui. É muito longe para chegar lá?”. Preconceito É possível que todos contribuam para que o problema das drogas pesadas, como o crack e o álcool (causa mais óbitos que as drogas ilícitas) diminuam, porém é preciso entender o funcionamento delas e, acima de tudo, compreender que a droga em si não é uma doença, mas a forma como problemas mentais complexos se expressam. A maioria dos usuários reconhece o sofrimento diante da falta de vontade e de sentimentos para as coisas da vida. Perde-se o desejo até mesmo em tomar banho. As saídas a serem tomadas pela população é, primeiro, deixar de contribuir com esmolas que serão trocadas por crack ou cachaça. A mudança de comportamento e da maneira de olhar também são peças fundamentais, pois os adictos são seres humanos com pouca e sem nenhuma afetividade desde sua infância e por isso precisaram encontrar na droga uma forma enganosa de conforto. Deixar o olhar segregador e excludente para trás é uma forma eficiente para encarar um problema que também é social e uma maneira humilde de reconhecer que todos, sem exceções, estão sujeitos a patologias mentais até mesmo mais graves. Já o Poder Público, especialmente em Divinópolis, precisa agir com mais rapidez e eficiência na regulamentação das burocracias exigidas pelo Governo Federal para trazer a Divinópolis programas como o Consultório de Rua e o CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas). Este último trata-se de uma clínica formada por psicólogos, médicos e assistentes sociais, que aplica um tratamento mais moderno e com atenção diferenciada ao usuário. Durante o tratamento o adicto aprenderá a conviver com seus problemas e terá orientações comportamentais. Nesse caso, a visão de que a droga é um mal indiscutível, passa a ser vista apenas como parte de um problema a ser controlado. Sacramento de Amor A Casa de Acolhimento Sacramento de Amor é uma instituição mantida por católicos leigos, desde 1997, quando começou com um trabalho de assistência aos moradores de rua. Primeiramente o grupo de voluntários começou a distribuir café da manhã. Com a união de forças, uma casa foi alugada e desde então, deu-se início também a uma casa de recuperação de pessoas viciadas em drogas. Atualmente 40 homens estão internados na casa, destes, quase todos enfrentam problemas com o álcool e o crack, exclusivamente. A fila de espera atual é de 50 pessoas. Para entrar na casa o usuário deve ter vontade própria e passar por uma triagem. Psicólogos, assistentes sociais, educador físico, enfermeiras e fisioterapeuta dão assistência direta aos internos. Embora a casa de acolhimento consiga recuperar algumas pessoas, Eduardo Moreira, fundador e coordenador geral, salienta que somente com a instalação de um CAPS AD em Divinópolis o tratamento de todas as casas de recuperação terão mais eficiência. “Com uma clínica de recuperação mais bem preparada, com médicos, psicólogos, internações e medicamentos adequados nosso trabalho aqui nas casas de recuperação serão mais eficientes. Existem estágios do vício que uma casa de recuperação não é suficiente para o tratamento. É preciso um olhar mais direcionado, um tratamento com medicação”, explicou. Osvaldo Cassemiro da Cunha, 40 anos, é da cidade de Camacho e mora na casa de acolhimento há 2 anos. Desde os 12 foi para o “mundão” e até então passou por seis internações. “Eu saí de casa muito cedo, pedia dinheiro na rua, olhava carro, fazia bicos para conseguir sobreviver. Não tinha família, era abandonado. Rodei por São Paulo, Mato Grosso, Goiás e cheguei em Divinópolis. Só aqui eu morei por 8 anos, na porta do Santuário. Usei todo tipo de droga que a rua me ofereceu. Mas hoje, graças a Deus, estou limpo há 2 anos. Entendeu? Quero dizer que faz dois anos que não uso nenhuma droga. Agradeço imensamente o Eduardo, do Sacramento de Amor, ele fez por mim aquilo que meu pai não fez. Mesmo depois de ir e voltar seis vezes ele nunca desistiu de mim, sempre acreditou na minha recuperação. A partir dessa semana estarei indo para Itaúna, onde o Sacramento de Amor está fazendo um novo trabalho e eu vou lá para colaborar com eles. Só pretendo sair dessa casa no caixão”, finalizou.

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