Este blog pretende, através de textos, imagens, e demais possiblidades, refletir o mundo ao nosso redor, sempre com o intuito de desenvolver o melhor que há em nós, para contribuir, para refletir e transformar o nosso entorno, através da politica, da filosofia, buscando sempre a alteridade, o respeito às diferenças, como forma de alcançar este intento.Um abraço, Cláudio.
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Bom dia a todos, viva a alteridade, a diferença que soma.
Está em http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/12/pena-de-morte-ateus-legalizada-paises.html
Pena de morte para ateus é legalizada em 7 países
Postado em: 13 dez 2012 às 22:34
Além dos países que punem os ateus com a morte, em outras nações os céticos e humanistas são obrigados a mentir para obter seus documentos oficiais, sem os quais é impossível ir para a universidade, receber tratamento médico e viajar para o exterior
Os ateus e outros céticos religiosos sofrem perseguição ou discriminação em muitas partes do mundo e em pelo menos sete países podem ser executados se sua falta da crença se tornar conhecida. A informação é de relatório da IHEU (União Internacional Humanista e Ética) divulgado no último dia 10/12/2012.
Pena capital para céticos vigora no Afeganistão, Irã, Maldivas, Sudão, Mauritânia, Paquistão e Arábia Saudita.
O relatório mostra que a situação dos “infiéis” é mais grave em países islâmicos, onde religião e Estado se confundem. As consequências para o cético às vezes podem ser brutais.
Ele também aponta que em alguns países europeus e nos Estados Unidos as leis favorecem os religiosos e suas organizações e tratam os ateus e humanistas como cidadãos de segunda classe.
O “A Liberdade de Pensamento 2012″ afirma que “há leis que negam aos ateus o direito de existir, restringindo a sua liberdade de não ter nenhuma crença e de expressão. Também revogam sua cidadania e limitam seu direito de se casar.”
Há leis que “obstruem o acesso dos céticos à educação pública, proíbe que exerçam cargo público, criminalizam a sua crítica à religião e os executam por deixar a religião de seus pais.”
O relatório foi levado ao conhecimento de Heiner Bielefeldt, relator especial das Nações Unidas sobre a liberdade de religião ou crença. Ele disse haver pouca divulgação de que os ateus estão protegidos por acordos globais de direitos humanos.
O IHEU — que congrega mais de 120 entidades humanistas, ateístas e seculares em mais de 40 países — informou que divulgou hoje o relatoria para marcar o Dia da ONU de Direitos Humanos.
De acordo com o relatório, que abrange 60 países, os sete onde ser ateu ou desertar da religião oficial pode trazer a pena capital são o Afeganistão, Irã, Maldivas, Mauritânia, Paquistão, Arábia Saudita e Sudão.
O relatório de 70 páginas não enumera casos recentes de execução por motivo de “ateísmo” porque os pesquisadores dizem que o delito é muitas vezes embutidos em outras acusações.
Em uma série de outros países — como Bangladesh, Egito, Indonésia, Kuwait e Jordânia — a publicação de ideias ateístas ou pontos de vista humanistas sobre religião são totalmente proibidos ou estritamente limitada, de acordo com leis de “blasfêmia”.
Em muitos destes países, e outros como a Malásia, os cidadãos têm de se registrar como seguidores de religiões oficialmente reconhecidas, as quais normalmente incluem não mais do que o islã, cristianismo e judaísmo.
Ateus e humanistas são, assim, obrigados a mentir para obter seus documentos oficiais, sem os quais é impossível ir para a universidade, receber tratamento médico, viajar para o exterior.
Países da Europa, da África subsaariana, da América Latina e da América do Norte, embora tenham governo tido como secular, dão privilégios a igrejas cristãs, como isenção fiscais e tratamento diferenciado em atividades como a educação.
Na Grécia e na Rússia, o governo protege ferozmente da Igreja Ortodoxa, cujos sacerdotes ocupam lugar de destaque em eventos de Estado. Na Grã-Bretanha bispos da Igreja da Inglaterra têm assentos na câmara alta do Parlamento.
Nos Estados Unidos, embora a liberdade de religião e de expressão tenha a proteção da Constituição, “há um clima social e político em que ateus e não-religiosos se sentem como os americanos menores ou não-americanos”, diz o relatório.
Em pelo menos sete Estados, há disposições legais que impedem ateus de assumirem cargos públicos. No Arkansas, uma lei proíbe ateu de depor como testemunha em um julgamento.
É uma boa reflexão, sobre como devemos tomar cuidado, para que este fanatismo não corroa também nossa sociedade, principalmente nosso legislativo, que aqueles que lutam pela liberdade de expressão, pela liberdade religiosa, pelo direito de ser ateu que é um direito como qualquer outro. É bom monitorar. E para nós que somos cristãos, budistas, ou qualquer vertente espiritual, possamos fazer uma prece pelo respeito e pela alteridade, afinal, é a diferença que nos une e nos faz aprender.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Para refletir.
Bom dia, lendo um artigo de Frei Betto sobre Trabalho Escravo no Brasil, na edição de hoje do jornal "Estado de Minas", não pude deixar de pensar na imensidão de "Brasis", que nos envolvem e que parecem não ter mesmo solução.Acho que o que mais me incomoda é a letargia, que tomou conta de nós, da sociedade em geral, salvo raras excessões. Me parece, uma sociedade descontrolada e sem freio, onde os mais elementares valores, como respeito a dignidade humana,a vida humana, não tem mais valor nenhum. Não irei me desculpar pela repetição do termo VALOR,pois é proposital e reflexivo, afinal, o que tem VALOR para nós?
Boa reflexão.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
Afinal, onde pensamos chegar, com tamanho atraso, afetivo, amoroso para com a nossa própria humanidade.Um abraço, Cláudio.
Hora de cuidar das doenças esquecidas
By admin– 6 de fevereiro de 2012
Num encontro internacional, laboratórios públicos do Sul formam rede que tentará produzir medicamentos contra enfermidades que não “interessam” às transnacionais
Por Fabiana Frayssinet, Envolverde/IPS
O surgimento de economias emergentes na América Latina é uma oportunidade para melhorar as estratégias de combate a doenças esquecidas e ampliar sua contribuição à luta mundial contra elas, afirmou o diretor regional da Iniciativa Medicamentos para Enfermidades Esquecidas (DNDi), Eric Stobbaerts.
“Nossa região passa por uma plena mutação em termos econômicos e sociais”, destacou Stobbaerts ao citar os avanços nesse aspecto no Brasil, Chile, México, na Argentina e Colômbia. Essa mudança positiva deveria ser aproveitada para “redefinir a maneira como essas doenças foram abordadas no passado”, várias delas endêmicas na região, como o mal de Chagas e a leishmaniose visceral, afirmou à IPS na sede da DNDi no Brasil.
Trata-se de males desatendidos pelos grandes laboratórios internacionais por serem consideradas “doenças de países pobres”, sem maior retorno lucrativo no desenvolvimento de remédios para combatê-las. O surgimento dessas economias emergentes no cenário mundial “significa mais recursos disponíveis para o desenvolvimento, a produção industrial e a inovação no combate a doenças tropicais esquecidas”, disse Stobbaerts.
O especialista conversou com a IPS após o encontro “Unidos para combater as enfermidades tropicais esquecidas”, realizado em Londres no dia 30 e organizado em apoio ao “Mapa do caminho 2020 para as doenças tropicais esquecidas”, com o qual a Organização Mundial da Saúde (OMS) pretende erradicar dez delas nesta década.
A DNDi comemorou em um comunicado, ao final do encontro na capital britânica, os avanços alcançados em nível mundial. Mas, exortou no sentido de se acabar com as lacunas em pesquisa e desenvolvimento para melhorar as ferramentas de diagnóstico e criar novos medicamentos antes de terminar esta década.
A iniciativa é uma organização não-governamental de pesquisa e desenvolvimento sem fins lucrativos que desde 2003 trabalha no desenvolvimento de medicamentos e tratamentos para as doenças esquecidas. Foca-se especialmente em enfermidades com alta taxa de mortalidade: a tripanosomiasis africana (doença do sono), infecções por vermes e aids infantil, além do Mal de Chagas e da leishmaniose visceral.
Stobbaerts destacou que a América Latina é tradicionalmente uma região com altos níveis endêmicos e um grande depósito de doenças desatendidas, para as quais existe “ótimo conhecimento técnico e científico”. Acrescentou que, “no entanto, as necessidades continuam sendo grandes diante da variedade de doenças esquecidas devido às leis de mercado, e grande número de pacientes continua sem tratamento”.
A DNDi tem entre seus sócios na América Latina a Fundação Fiocruz, e laboratórios públicos como Farmanguinhos e Lafepe, no Brasil. Entre seus sócios fora da região se destacam o Instituto Pasteur, da França, e a organização Médicos Sem Fronteiras. Estas sociedades permitem acordos com o setor privado e instituições acadêmicas para desenvolver atualmente projetos no Brasil, na Argentina, Bolívia e Colômbia.
Além disso, foi possível desenvolver em nível mundial seis tratamentos para a malária, a doença do sono ou a leishmaniose. Desde a América Latina se contribuiu com um remédio infantil contra o Mal de Chagas, o benznidazol pediátrico (http://envolverde.com.br/noticias/brasil-desenvolve-medicamento-contra-mal-de-chagas/).
“O apoio político em todas as fases da pesquisa e do desenvolvimento foi fundamental para esses êxitos”, recordou Stobbaerts. “Mas, sabemos que não são suficientes os esforços em termos de desenvolvimento farmacêutico”, disse o especialista. “As regulamentações e a distribuição, bem como os sistemas de saúde, são essenciais para o sucesso da inovação. São inúmeras as barreiras que podem fazer com que um novo medicamento fique na prateleira”, ressaltou.
Stobbaerts citou como exemplo o que ocorre na América Latina com o mal de Chagas, ou tripanosomiasis americana, por suas vinculações com a doença do sono. As pessoas portadoras ou infectadas da região com o parasita tripanosoma cruzi, muitas sem saber disso, passam de oito milhões. A doença afeta especialmente Brasil, Argentina, Bolívia, México e Paraguai, e as mortes registradas relacionadas com esse mal são cerca de 12 mil ao ano, embora se considere que, na realidade, sejam muitas mais, porque “existe um sub-registro evidente”, segundo o diretor da DNDi.
A falta de ferramentas adequadas para diagnosticar o mão de Chagas é outro problema. “Há urgência em contar com um exame para o diagnóstico que permita de maneira confiável um tratamento de sucesso”, afirmou. “Sem isso, se continua tratando sem ter a perspectiva da situação parasitária do paciente no longo prazo. Isso exige intenso acompanhamento médico e um custo para os serviços de cuidados de saúde primária e secundaria”, acrescentou Stobbaerts.
“O desafio é conseguir ferramentas que sejam aplicáveis no terreno, muitas vezes em lugares remotos e isolados. Ou seja, que sejam fáceis na utilização e no manejo para o pessoal da saúde no local. E, também, que sejam de tecnologia barata, devido aos limitados orçamentos de saúde pública”, ressaltou o especialista.
No encontro de Londres a DNDi mencionou entre outros aspectos-chave no combate das doenças esquecidas os da promoção da inovação, o intercâmbio aberto dos conhecimentos e da pesquisa, e a criação de associações de instituições públicas e privadas para o desenvolvimento de medicamentos.
Nesse sentido – afirmou-se – nesta região “se trabalha desde a sociedade civil até as áreas mais avançadas da ciência no sentido de demandar posições abertas com soluções pragmáticas dos grandes países da América Latina nos fóruns internacionais, com a Assembleia Mundial da Saúde ou o G-20” (maiores países industrializados e emergentes). Para Stobbaerts, existe “um caminho na região que traz esperança”.
“As universidades se mobilizam, abrindo bibliotecas e laboratórios a iniciativas sem fins lucrativos, o setor farmacêutico privado parece mais interessado em questões de responsabilidade social e corre um vento de filantropia privada que poderia se interessar mais em questões de saúde”, acrescentou o especialista.
Para a DNDi as plataformas regionais para a pesquisa clinica de doenças específicas, que aglutinam pesquisadores, médicos, reguladores, controladores nacionais e, idealmente, os próprios afetados, “são vitais para garantir que trabalhamos com base nas necessidades dos pacientes”. Nesse contexto, citou a Plataforma de Pesquisa Clinica no Mal de Chagas, que desde 2009 reúne um grande número de associados na América Latina.
A DDNi também disse que é chave garantir a participação e a liderança dos países endêmicos para responder aos pacientes e conseguir um financiamento sustentável e diversificado para ampliar o desenvolvimento e a pesquisa. “Aqui o interesse de nossa região é duplo: por estar liderando em nível global, proporcionando novas ideias, além de resolver emergências de saúde que se sofre localmente. É um trabalho cotidiano para alimentar a reflexão e romper os modelos de que pouco se pode fazer”, concluiu Stobbaerts.
OUTRAS PALVRAS.NET
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Pela gradativa redução desses profissionais no Brasil, a data não é um "chute", é uma possibilidade REAL E CONCRETA. Estou publicando no blog pela relevância do tema, o texto é de autor desconhecido.Um abraço a todos.
Ano 2020: A extinção dos professores.
O ano é 2020 D.C. - ou seja, daqui a nove anos - e uma conversa entre avô e neto tem início a partir da seguinte interpelação:
- Vovô, por que o mundo está acabando?
A calma da pergunta revela a inocência da alma infante. E no mesmo tom vem a resposta:
- Porque não existem mais PROFESSORES, meu anjo.
- Professores? Mas o que é isso? O que fazia um professor?
O velho responde, então, que professores eram homens e mulheres elegantes e dedicados, que se expressavam sempre de maneira muito culta e que, muitos anos atrás, transmitiam conhecimentos e ensinavam as pessoas a ler, falar, escrever, se comportar, localizar-se no mundo e na história, entre muitas outras coisas. Principalmente, ensinavam as pessoas a pensar.
- Eles ensinavam tudo isso? Mas eles eram sábios?
- Sim, ensinavam, mas não eram todos sábios. Apenas alguns, os grandes professores, que ensinavam outros professores, e eram amados pelos alunos.
- E como foi que eles desapareceram, vovô?
- Ah,foi tudo parte de um plano secreto e genial, que foi executado aos poucos por alguns vilões da sociedade. O vovô não se lembra direito do que veio primeiro, mas sem dúvida, os políticos ajudaram muito. Eles acabaram com todas as formas de avaliação dos alunos, apenas para mostrar estatísticas de aprovação. Assim, sabendo ou não sabendo alguma coisa, os alunos eram aprovados. Isso liquidou o estímulo para o estudo e apenas os alunos mais interessados conseguiam aprender alguma coisa.
Depois, muitas famílias estimularam a falta de respeito pelos professores, que passaram a ser vistos como empregados de seus filhos.Estes foram ensinados a dizer "eu estou pagando e você tem que me ensinar", ou "para que estudar se meu pai não estudou e ganha muito mais do que você"ou ainda "meu pai me dá mais de mesada do que você ganha". Isso quando não iam os próprios pais gritar com os professores nas escolas. Para isso muito ajudou a multiplicação de escolas particulares, as quais, mais interessadas nas mensalidades que na qualidade do ensino, quando recebiam reclamações dos pais, pressionavam os professores, dizendo que eles não estavam conseguindo "gerenciar a relação com o aluno". Os professores eram vítimas da violência - física, verbal e moral - que lhes era destinada por pobres e ricos. Viraram saco de pancadas de todo mundo.
Além disso, qualquer proposta de ensino sério e inovador sempre esbarrava na obsessão dos pais com a aprovação do filho no vestibular, para qualquer faculdade que fosse. "Ah, eu quero saber se isso que vocês estão ensinando vai fazer meu filho passar no vestibular", diziam os pais nas reuniões com as escolas. E assim, praticamente todo o ensino foi orientado para os alunos passarem no vestibular. Lá se foi toda a aprendizagem de conceitos, as discussões de idéias, tudo, enfim, virou decoração de fórmulas. Com a Internet, os trabalhos escolares e as fórmulas ficaram acessíveis a todos, e nunca mais ninguém precisou ir à escola para estudar a sério.
Em seguida, os professores foram desmoralizados.Seus salários foram gradativamente sendo esquecidos e ninguém mais queria se dedicar à profissão. Quando alguém criticava a qualidade do ensino, sempre vinha algum tonto dizer que a culpa era do professor. As pessoas também se tornaram descrentes da educação, pois viam que as pessoas "bem sucedidas" eram políticos e empresários que os financiavam, modelos, jogadores de futebol, artistas de novelas da televisão - enfim, pessoas sem nenhuma formação ou contribuição real para a sociedade...
ATENÇÃO: Qualquer semelhança com a situação deste País ultrajado e saqueado por políticos quadrilheiros e mafiosos, não é mera coincidência.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Não estás deprimido, estás distraído - Facundo Cabral
Share Não estás deprimido, estás distraído em relação à vida que te preenche,
Distraído em relação à vida que te rodeia: golfinhos, bosques, mares, montanhas e rios.
Não caias como caiu teu irmão que sofre por um único ser humano, quando existem cinco bilhões e seiscentos milhões no mundo. Além de tudo, não é assim tão ruim viver só. Eu fico bem decidindo a cada instante o que desejo fazer e graças à solidão conheço-me... o que é fundamental para viver.
Não faças o que fez teu pai, que se sente velho porque tem setenta anos e esquece que Moisés comandou o Êxodo aos oitenta e Rubinstein interpretava Chopin com maestria sem igual aos noventa para falar somente dois casos conhecidos.
Não estás deprimido, estás distraído. Por isto acreditas que perdeste algo. O que é impossível porque tudo te foi dado. Não fizeste um só cabelo da tua cabeça, portanto não és dono de coisa alguma.
Além disso, a vida não te tira coisas: liberta-te das coisas. Alivia-te para que possas voar mais alto, para que alcances a plenitude. Do útero ao túmulo vivemos numa escola, por isso o que chamas de problemas são lições. Não perdeste coisa alguma, aquele que morre está apenas adiantado em relação à nós, porque todos vamos na mesma direção, e não esqueças, que o melhor dele, o amor, continua em teu coração.
Não existe a morte... Apenas a mudança.
E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, o Arcanjo Miguel,
Whitman, Santo Agostinho, Madre Teresa, teu avô e minha mãe, que acreditava que a pobreza está mais próxima do amor, porque o dinheiro nos distrai com coisas demais, e nos machuca, porque nos torna desconfiados.
Faz apenas o que amas e serás feliz. Aquele que faz o que ama, está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando for a hora, porque o que deve ser, será, e chegará de forma natural.
Não faças coisa alguma por obrigação ou por compromisso, apenas por amor.
Então terás plenitude, e nessa plenitude tudo é possível sem esforço, porque és movido pela força natural da vida, a mesma que me ergueu quando caiu o avião que levava minha mulher e minha filha; a mesma que me manteve vivo quando os médicos me deram três ou quatro meses de vida.
Deus tornou-te responsável por um ser humano, que és tu.
Deves trazer felicidade e liberdade para ti mesmo.
E só então poderás compartilhar a vida verdadeira com todos os outros.
Lembra-te : "Amarás ao próximo como a ti mesmo". Reconcilia-te contigo, coloca-te frente ao espelho e pensa que esta criatura que vês, é uma obra de Deus, e decide neste exato momento ser feliz, porque a felicidade é uma aquisição
Aliás, a felicidade não é um direito, mas um dever; porque se não fores feliz, estarás levando amargura para todos os teus vizinhos.
Um único homem que não possuiu talento e valor para viver, mandou matar seis milhões de judeus, seus irmãos.
Existem tantas coisas para experimentar, e a nossa passagem pela terra é tão curta, que sofrer é uma perda de tempo.
Podemos experimentar a neve no inverno e as flores na primavera, o chocolate de Perusa, a baguette francesa, os tacos mexicanos, o vinho chileno, os mares e os rios, o futebol dos brasileiros, As Mil e Uma Noites, a Divina Comédia, Quixote, Pedro Páramo, os boleros de Manzanero e as poesias de Whitman; a música de Mahler, Mozart, Chopin, Beethoven; as pinturas de Caravaggio, Rembrandt, Velázquez, Picasso e Tamayo, entre tantas maravilhas como abraçar quem amamos e simplesmente sorrir!
E se estás com câncer ou AIDS, podem acontecer duas coisas, e ambas são positivas:
se a doença ganha, te liberta do corpo que é cheio de processos (tenho fome, tenho frio, tenho sono, tenho vontades, tenho razão, tenho dúvidas)... Se tu vences, serás mais humilde, mais agradecido...
... portanto, facilmente feliz, livre do enorme peso da culpa, da responsabilidade e da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente, como deve ser.
Não estás deprimido, estás desocupado.
Ajuda a criança que precisa de ti, ajuda os velhos e os jovens te ajudarão quando for tua vez.
Aliás, o serviço prestado é uma forma segura de ser feliz, como é gostar da natureza e cuidar dela para aqueles que virão.
Dá sem medida, e receberás sem medida.
Ama até que te tornes o ser amado; mais ainda converte-te no próprio Amor.
E não te deixes enganar por alguns homicidas e suicidas.
O bem é maioria, mas não se percebe porque é silencioso.
Uma bomba faz mais barulho que uma caricia, porém, para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida.
Vale a pena, não é mesmo?
Se Deus possuísse uma geladeira, teria a tua foto grudada nela. Se ele possuísse uma carteira, tua foto estaria nela. Ele te envia flores a cada primavera. Ele te envia um amanhecer a cada manhã. Cada vez que desejas falar, Ele te escuta. Ele poderia viver em qualquer ponto do Universo, mas escolheu o teu coração. Encara, amigo, Ele está louco por ti!
Deus não te prometeu dias sem dor, riso sem tristeza, sol sem chuva, porém Ele prometeu força para cada dia, consolo para as lágrimas, e luz para o caminho.
Facundo Cabral
Facundo Cabral é um cantor Argentino, nascido em 22 de maio de 1937 na cidade de Balcarce, província de Buenos Aires, Argentina. Cabral teve uma infância dura e desprotegida, tornando-se um marginal, a ponto de ser internado em um reformatório. Em pouco tempo conseguiu escapar e, segundo conta, encontrou Deus nas palavras de Simeão, um velho vagabundo. Influenciado, no lado espiritual, por Jesus, Gandhi e Madre Teresa de Calcutá, na literatura por Borges e Walt Whitman, sua vida toma um rumo espiritual de observação constante em tudo o que acontece em seu redor, não se conformando com o que vê. Em reconhecimento do seu constante apelo à paz e amor, em 1996, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) o declarou "Mensageiro Mundial da Paz”.
* Facundo Cabral foi assassinado na Guatemala em 09 de julho de 2011
Read more: http://purareflexao.blogspot.com/2011/04/nao-estas-deprimido-estas-distraido.html#ixzz1tfC3QjeB
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Para onde irão os indignados e o "ocuppiers"?
Texto muito bem feito pelo Teologo/Filosofo Leonardo Boff, outro eco importante do anda acontecendo, devemos ser otimistas em relação a nós mesmos.Um abraço, Cláudio.
Artigo de Leonardo Boff. Teólogo/Filósofo
Para onde irão os indignados e o “occupiers”?
Uma das mesas de debates importante no Forum Social Temático em Porto
Alegre, da qual me coube participar, foi escutar os testemunhos vivos dos
Indignados da Espanha, de Londres, do Egito e dos USA. O que me deixou
muito impressionado foi a seriedade dos discursos, longe do viés anárquico
dos anos 60 do século passado com suas muitas “parolle”. O tema central era
“democracia já”. Revindicava-se uma outra democracia, bem diferente desta a
que estamos acostumados, que é mais farsa do que realidade. Querem uma
democracia que se constrói a partir da rua e das praças, o lugar do poder
originário. Uma democracia que vem de baixo, articulada organicamente com o
povo, transparente em seus procedimentos e não mais corroída pela
corrupção. Esta democracia, de saida, se caracteriza por vincular justiça
social com justiça ecológica.
Curiosamente, os indignados, os “occupiers” e os da Primavera Árabe não se
remeteram ao clássico discurso das esquerdas, nem sequer aos sonhos das
várias edições do Forum Social Mundial. Encontramo-nos num outro tempo e
surgiu uma nova sensibilidade. Postula-se outro modo de ser cidadão,
incluindo poderosamente as mulheres antes feitas invisíveis, cidadãos com
direitos, com participação, com relações horizontais e transversais
facilitadas pelas redes sociais, pelo celular, pelo twitter e pelos
facebooks. Temos a ver com uma verdadeira revolução. Antes as relações se
organizavam de forma vertical, de cima para baixo. Agora é de forma
horizontal, para os lados, na imediatez da comunicação à velocidade da luz.
Este modo representa o tempo novo que estamos vivendo, da informação, da
descoberta do valor da subjetividade, não aquela da modernidade,
encapsulada em si mesma, mas da subjetividade relacional, da emergência de
uma consciência de espécie que se descobre dentro da mesma e única Casa
Comum, Casa, em chamas ou ruindo pela excessiva pilhagem praticada pelo
nosso sistema de produção e consumo.
Essa sensibilidade não tolera mais os métodos do sistema de superar a crise
econômica e derivadas, sanando os bancos com o dinheiro dos cidadãos,
impondo severa austeridade fiscal, a desmontagem da seguridade social, o
achatamento dos salários, o corte dos investimentos no pressuposto
ilusório de que desta forma se reconquista a confiança dos mercados e se
reanima a economia. Tal concepção é feita dogma e ai se ouve o estúpido
bordão:“TINA: there is no alternative”, não há alternativa. Os sacrílegos
sumos sacerdotes da trindade nada santa do FMI, da União Européia e do
Banco Central Europeu deram um golpe financeiro na Grécia e na Itália e
puseram lá seus acólitos como gestores da crise, sem passar pelo rito
democrático. Tudo é visto e decidido pela ótica exclusiva do econômico,
rebaixando o social e o sofrimento coletivo desnecessário, o desespero das
famílias e a indignação dos jovens por não conseguirem trabalho. Tudo pode
desembocar numa crise com consequências dramáticas.
Paul Krugmann, prêmio Nobel de economia, passou uns dias na Islândia para
estudar a forma como esse pequeno pais ártico saiu de sua crise
avassaladora. Seguiram o caminho correto que outros deveriam também ter
seguido: deixaram os bancos quebrar, puseram na cadeia os banqueiros e
especuladores que praticaram falcatruas, reescreveram a constituição,
garantiram a seguridade social para evitar uma derrocada generalizada e
conseguiram criar empregos. Consequência: o pais saiu do atoleiro e é um
dos que mais cresce nos paises nórticos. O caminho islandês foi silenciado
pela midia mundial de temor de que servisse de exemplo para os demais
países. E a assim a carruagem, com medidas equivocadas mas coerentes com o
sistema, corre célere rumo a um precipício.
Contra esse curso previsível se opõem os indignados. Querem um outro mundo
mais amigo da vida e respeitoso da natureza. Talvez a Islândia servirá de
inspiração. Para onde irão? Quem sabe? Seguramente não na direção dos
modelos do passado, já exauridos. Irão na direção daquilo que falava Paulo
Freire “do inédito viável” que nascerá desse novo imaginário. Ele se
expressa, sem violência, dentro de um espírito democrático-participativo,
com muito diálogo e trocas enriquecedoras. De todas as formas o mundo
nunca será como antes, muito menos como os capitalistas gostariam que
ficasse.****
Artigo de Leonardo Boff. Teólogo/Filósofo
Para onde irão os indignados e o “occupiers”?
Uma das mesas de debates importante no Forum Social Temático em Porto
Alegre, da qual me coube participar, foi escutar os testemunhos vivos dos
Indignados da Espanha, de Londres, do Egito e dos USA. O que me deixou
muito impressionado foi a seriedade dos discursos, longe do viés anárquico
dos anos 60 do século passado com suas muitas “parolle”. O tema central era
“democracia já”. Revindicava-se uma outra democracia, bem diferente desta a
que estamos acostumados, que é mais farsa do que realidade. Querem uma
democracia que se constrói a partir da rua e das praças, o lugar do poder
originário. Uma democracia que vem de baixo, articulada organicamente com o
povo, transparente em seus procedimentos e não mais corroída pela
corrupção. Esta democracia, de saida, se caracteriza por vincular justiça
social com justiça ecológica.
Curiosamente, os indignados, os “occupiers” e os da Primavera Árabe não se
remeteram ao clássico discurso das esquerdas, nem sequer aos sonhos das
várias edições do Forum Social Mundial. Encontramo-nos num outro tempo e
surgiu uma nova sensibilidade. Postula-se outro modo de ser cidadão,
incluindo poderosamente as mulheres antes feitas invisíveis, cidadãos com
direitos, com participação, com relações horizontais e transversais
facilitadas pelas redes sociais, pelo celular, pelo twitter e pelos
facebooks. Temos a ver com uma verdadeira revolução. Antes as relações se
organizavam de forma vertical, de cima para baixo. Agora é de forma
horizontal, para os lados, na imediatez da comunicação à velocidade da luz.
Este modo representa o tempo novo que estamos vivendo, da informação, da
descoberta do valor da subjetividade, não aquela da modernidade,
encapsulada em si mesma, mas da subjetividade relacional, da emergência de
uma consciência de espécie que se descobre dentro da mesma e única Casa
Comum, Casa, em chamas ou ruindo pela excessiva pilhagem praticada pelo
nosso sistema de produção e consumo.
Essa sensibilidade não tolera mais os métodos do sistema de superar a crise
econômica e derivadas, sanando os bancos com o dinheiro dos cidadãos,
impondo severa austeridade fiscal, a desmontagem da seguridade social, o
achatamento dos salários, o corte dos investimentos no pressuposto
ilusório de que desta forma se reconquista a confiança dos mercados e se
reanima a economia. Tal concepção é feita dogma e ai se ouve o estúpido
bordão:“TINA: there is no alternative”, não há alternativa. Os sacrílegos
sumos sacerdotes da trindade nada santa do FMI, da União Européia e do
Banco Central Europeu deram um golpe financeiro na Grécia e na Itália e
puseram lá seus acólitos como gestores da crise, sem passar pelo rito
democrático. Tudo é visto e decidido pela ótica exclusiva do econômico,
rebaixando o social e o sofrimento coletivo desnecessário, o desespero das
famílias e a indignação dos jovens por não conseguirem trabalho. Tudo pode
desembocar numa crise com consequências dramáticas.
Paul Krugmann, prêmio Nobel de economia, passou uns dias na Islândia para
estudar a forma como esse pequeno pais ártico saiu de sua crise
avassaladora. Seguiram o caminho correto que outros deveriam também ter
seguido: deixaram os bancos quebrar, puseram na cadeia os banqueiros e
especuladores que praticaram falcatruas, reescreveram a constituição,
garantiram a seguridade social para evitar uma derrocada generalizada e
conseguiram criar empregos. Consequência: o pais saiu do atoleiro e é um
dos que mais cresce nos paises nórticos. O caminho islandês foi silenciado
pela midia mundial de temor de que servisse de exemplo para os demais
países. E a assim a carruagem, com medidas equivocadas mas coerentes com o
sistema, corre célere rumo a um precipício.
Contra esse curso previsível se opõem os indignados. Querem um outro mundo
mais amigo da vida e respeitoso da natureza. Talvez a Islândia servirá de
inspiração. Para onde irão? Quem sabe? Seguramente não na direção dos
modelos do passado, já exauridos. Irão na direção daquilo que falava Paulo
Freire “do inédito viável” que nascerá desse novo imaginário. Ele se
expressa, sem violência, dentro de um espírito democrático-participativo,
com muito diálogo e trocas enriquecedoras. De todas as formas o mundo
nunca será como antes, muito menos como os capitalistas gostariam que
ficasse.****
quarta-feira, 28 de março de 2012
Cidadania Ativa
Paulo Roberto Santos é Sociólogo e um grande pensador, devemos ouvir os ecos dos textos de pessoas como ele.Um abraço, Cláudio.
OS PERIGOS DA CIDADANIA ATIVA *
Paulo R. Santos
Ser cidadão ou cidadã, de fato e de direito, é perigoso? Sim. Tanto no Brasil como em qualquer outra parte do planeta. Afinal, fazer valerem direitos e respeito a costumes socialmente determinados, a leis que equilibram a convivência social, sempre vão esbarrar em interesses de casta, classe e, principalmente, em interesses pessoais.
Chico Mendes é atualmente lembrado e celebrado como um homem exemplar na defesa da Amazônia, do meio ambiente, dos direitos dos pequenos diante dos abusos e da tirania dos grandes e poderosos. Foi indiretamente ameaçado. Recebeu recados de que sua vida estava em perigo. Fez denúncia à Polícia, ao Ministério Público, mas só foi levado a sério depois de ter sido encontrado morto, com o peito cheio de chumbos de uma espingarda de grosso calibre.
Chico Mendes morreu por aquilo em que acreditava. Morreu por seus ideais, por causa de sua determinação, de sua ousadia em enfrentar os donos do negócio (o negócio, neste caso, é a Amazônia e suas riquezas naturais). Morreu por reclamar menos e fazer mais. A isso se denomina cidadania ativa.
Cidadania não se resume a um status jurídico. Um direito outorgado pelo Estado a partir de uma determinada idade. Cidadania é, sobretudo, uma escolha moral, e essa escolha pode acontecer em qualquer idade. Independe de sexo, etnia, idade, religião, grau de escolaridade, vida urbana ou rural.
Cidadania é um estado de alma. Um comprometimento com a vida coletiva, com o bem-estar de todos e de todas. A cidadania está colada à solidariedade e aos direitos para todos e para todas. Direitos e não privilégios. Os poderosos de todos os tempos defendem seus supostos privilégios de classe ou casta, e os revolucionários (ou cidadãos ativos) de sempre, morrem pela preservação ou conquista de direitos.
A cidadania passiva é conveniente para a democracia liberal-burguesa. Afinal, uma vez a cada quatro (ou dois) anos vamos às urnas para sacramentar o que já está decidido no topo da pirâmide do poder. Ainda assim, o voto é um meio de mudar os rumos da vida coletiva sem derramamento de sangue, ... mas depende de cidadãos ativos, atentos ao que de fato acontece na vida coletiva.
A cidadania ativa é cotidiana e, por isso mesmo, perigosa. Exige o enfrentamento das mazelas sociais, da corrupção, dos desmandos, dos maus tratos produzidos por aqueles que deveriam atender bem ao cidadão. Exige posicionamento sobre assuntos controversos, que se admita o contraditório, que se treine a convivência entre diferenças e divergências dentro dos limites das leis do país e dos costumes.
A cidadania passiva é complacente, omissa e conivente, e seus adeptos sofrem da “síndrome de Pilatos” (“Isso não e comigo!”). Lavam as mãos diante de tudo que lhes afeta a rotina ou lhes fira algum interesse pessoal.
A cidadania ativa é perigosa porque exige exposição pessoal, a denúncia e a renúncia. Só pode ser levada a efeito por aqueles que estão dispostos a sofrer (ou a morrer) pelo que é justo e bom para todos. São muitos os casos na história. Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King Jr., Chico Mendes, ... e muitos outros e outras, conhecidos e anônimos que, aliás, são maioria.
Reclamar e terceirizar responsabilidades ou ações não muda os rumos das coisas. Basta ver como anda a vida social na atualidade. Os indicadores crescentes de homicídios, suicídios, linchamentos, violências de todos os tipos, não serão reduzidos pelo poder público, fragilizado, leniente e contaminado pelo crime organizado. Os membros conscientes da sociedade civil terão que aliar-se aos 'engajados' para reverter, quanto possível, a curva ascendente da decadência social.
OS PERIGOS DA CIDADANIA ATIVA *
Paulo R. Santos
Ser cidadão ou cidadã, de fato e de direito, é perigoso? Sim. Tanto no Brasil como em qualquer outra parte do planeta. Afinal, fazer valerem direitos e respeito a costumes socialmente determinados, a leis que equilibram a convivência social, sempre vão esbarrar em interesses de casta, classe e, principalmente, em interesses pessoais.
Chico Mendes é atualmente lembrado e celebrado como um homem exemplar na defesa da Amazônia, do meio ambiente, dos direitos dos pequenos diante dos abusos e da tirania dos grandes e poderosos. Foi indiretamente ameaçado. Recebeu recados de que sua vida estava em perigo. Fez denúncia à Polícia, ao Ministério Público, mas só foi levado a sério depois de ter sido encontrado morto, com o peito cheio de chumbos de uma espingarda de grosso calibre.
Chico Mendes morreu por aquilo em que acreditava. Morreu por seus ideais, por causa de sua determinação, de sua ousadia em enfrentar os donos do negócio (o negócio, neste caso, é a Amazônia e suas riquezas naturais). Morreu por reclamar menos e fazer mais. A isso se denomina cidadania ativa.
Cidadania não se resume a um status jurídico. Um direito outorgado pelo Estado a partir de uma determinada idade. Cidadania é, sobretudo, uma escolha moral, e essa escolha pode acontecer em qualquer idade. Independe de sexo, etnia, idade, religião, grau de escolaridade, vida urbana ou rural.
Cidadania é um estado de alma. Um comprometimento com a vida coletiva, com o bem-estar de todos e de todas. A cidadania está colada à solidariedade e aos direitos para todos e para todas. Direitos e não privilégios. Os poderosos de todos os tempos defendem seus supostos privilégios de classe ou casta, e os revolucionários (ou cidadãos ativos) de sempre, morrem pela preservação ou conquista de direitos.
A cidadania passiva é conveniente para a democracia liberal-burguesa. Afinal, uma vez a cada quatro (ou dois) anos vamos às urnas para sacramentar o que já está decidido no topo da pirâmide do poder. Ainda assim, o voto é um meio de mudar os rumos da vida coletiva sem derramamento de sangue, ... mas depende de cidadãos ativos, atentos ao que de fato acontece na vida coletiva.
A cidadania ativa é cotidiana e, por isso mesmo, perigosa. Exige o enfrentamento das mazelas sociais, da corrupção, dos desmandos, dos maus tratos produzidos por aqueles que deveriam atender bem ao cidadão. Exige posicionamento sobre assuntos controversos, que se admita o contraditório, que se treine a convivência entre diferenças e divergências dentro dos limites das leis do país e dos costumes.
A cidadania passiva é complacente, omissa e conivente, e seus adeptos sofrem da “síndrome de Pilatos” (“Isso não e comigo!”). Lavam as mãos diante de tudo que lhes afeta a rotina ou lhes fira algum interesse pessoal.
A cidadania ativa é perigosa porque exige exposição pessoal, a denúncia e a renúncia. Só pode ser levada a efeito por aqueles que estão dispostos a sofrer (ou a morrer) pelo que é justo e bom para todos. São muitos os casos na história. Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King Jr., Chico Mendes, ... e muitos outros e outras, conhecidos e anônimos que, aliás, são maioria.
Reclamar e terceirizar responsabilidades ou ações não muda os rumos das coisas. Basta ver como anda a vida social na atualidade. Os indicadores crescentes de homicídios, suicídios, linchamentos, violências de todos os tipos, não serão reduzidos pelo poder público, fragilizado, leniente e contaminado pelo crime organizado. Os membros conscientes da sociedade civil terão que aliar-se aos 'engajados' para reverter, quanto possível, a curva ascendente da decadência social.
terça-feira, 27 de março de 2012
ZONA DE CONFORTO
Olá amigos,este texto de meu amigo Paulo R. Santos é muito bom para nos situarmos neste mundo em que vivemos, vamos refletir? Um abraço, Cláudio
ZONA DE CONFORTO
Paulo R. Santos
“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.
Martin Luther King
Nunca antes a vida teve tão pouco valor. Não me refiro apenas à vida humana, mas de todos os seres sobre a terra, plantas e animais inclusive. E nunca antes a frase do reverendo M. Luther King teve tanta atualidade, considerando que, mesmo com as exceções, como o movimento dos 'Indignados', Wikileaks/Assange, Anonymous e outros, a quantidade dos que estão quietos em sua zona de conforto é muito grande.
Em recente entrevista pela TV, o psicanalista Flávio Gikovate disse que metade da população humana está com o equipamento emocional incompleto. Falta senso moral. Pessoas que cometem todos os tipos de erros e barbaridades, do homicídio à aparentemente simples omissão, sem sentimento de culpa. Essa ausência do sentimento de culpa, de compromisso com o todo, é a questão. É o 'deixa como está para ver como é que fica', e enquanto isso coisas ruins acontecem.
Não se trata de assumir individualmente as dores do mundo e sair por aí, quixotescamente, como um salvador da pátria, mas apenas de ter consciência de que algo está muito errado com nossa sociedade e que precisamos mudar isso. Somos a causa e somos também a solução.
A verdade é que estamos nos acostumando com a tragédia do cotidiano. O filósofo Ortega y Gasset afirmou que a vida é drama. Sem dúvida ! Mas mesmo um drama pode ser vivido com dignidade. O sociólogo Max Weber atribuiu boa parte dos desarranjos e sofrimentos da sociedade à dessacralização (ele chamou de desencantamento) do mundo. Visto por esse ângulo, o mundo e tudo o que ele contém se torna “coisa” e nada mais. Karl Marx também já havia tratado do assunto décadas antes.
Apesar dos avisos e alertas dos pensadores de várias tendências e épocas, chegamos ao ponto em que nos encontramos atualmente: diante do crescimento da violência sob várias formas, da incerteza quanto ao futuro, da falta de valores que sustentem nosso dia a dia, da ausência de sentido e de propósito da existência.
A tragédia humana se amplia na forma de violência contra si, contra o 'outro' e contra a sociedade. A entrada em cena desse novo ator social chamado “multidão” gera alguma esperança, já que cada vez mais pessoas se convencem de que nem políticos, nem religiosos vão resolver problemas coletivos ou individuais. A ausência de lideranças nesses novos movimentos horizontaliza as ações e inibe a cooptação por parte de partidos e religiões.
Ainda assim, é preciso aumentar o número de ativistas, dos atuantes de alguma forma, retirando mais gente de sua zona de conforto e de falsa segurança, da covardia moral e da falta de compromisso com os interesses coletivos.
ZONA DE CONFORTO
Paulo R. Santos
“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.
Martin Luther King
Nunca antes a vida teve tão pouco valor. Não me refiro apenas à vida humana, mas de todos os seres sobre a terra, plantas e animais inclusive. E nunca antes a frase do reverendo M. Luther King teve tanta atualidade, considerando que, mesmo com as exceções, como o movimento dos 'Indignados', Wikileaks/Assange, Anonymous e outros, a quantidade dos que estão quietos em sua zona de conforto é muito grande.
Em recente entrevista pela TV, o psicanalista Flávio Gikovate disse que metade da população humana está com o equipamento emocional incompleto. Falta senso moral. Pessoas que cometem todos os tipos de erros e barbaridades, do homicídio à aparentemente simples omissão, sem sentimento de culpa. Essa ausência do sentimento de culpa, de compromisso com o todo, é a questão. É o 'deixa como está para ver como é que fica', e enquanto isso coisas ruins acontecem.
Não se trata de assumir individualmente as dores do mundo e sair por aí, quixotescamente, como um salvador da pátria, mas apenas de ter consciência de que algo está muito errado com nossa sociedade e que precisamos mudar isso. Somos a causa e somos também a solução.
A verdade é que estamos nos acostumando com a tragédia do cotidiano. O filósofo Ortega y Gasset afirmou que a vida é drama. Sem dúvida ! Mas mesmo um drama pode ser vivido com dignidade. O sociólogo Max Weber atribuiu boa parte dos desarranjos e sofrimentos da sociedade à dessacralização (ele chamou de desencantamento) do mundo. Visto por esse ângulo, o mundo e tudo o que ele contém se torna “coisa” e nada mais. Karl Marx também já havia tratado do assunto décadas antes.
Apesar dos avisos e alertas dos pensadores de várias tendências e épocas, chegamos ao ponto em que nos encontramos atualmente: diante do crescimento da violência sob várias formas, da incerteza quanto ao futuro, da falta de valores que sustentem nosso dia a dia, da ausência de sentido e de propósito da existência.
A tragédia humana se amplia na forma de violência contra si, contra o 'outro' e contra a sociedade. A entrada em cena desse novo ator social chamado “multidão” gera alguma esperança, já que cada vez mais pessoas se convencem de que nem políticos, nem religiosos vão resolver problemas coletivos ou individuais. A ausência de lideranças nesses novos movimentos horizontaliza as ações e inibe a cooptação por parte de partidos e religiões.
Ainda assim, é preciso aumentar o número de ativistas, dos atuantes de alguma forma, retirando mais gente de sua zona de conforto e de falsa segurança, da covardia moral e da falta de compromisso com os interesses coletivos.
terça-feira, 13 de março de 2012
Oscar Niemayer e Brasilia
FRASE DA SEMANA- Niemayer dá show!
Aniversário de 102 Anos!
Descrição: cid:A3297CDCBB0A4C75B51A110626C86EC2@Rachel
"Projetar Brasília para os Políticos que vocês colocaram lá, foi como criar um lindo vaso de flores prá vocês usarem como pinico. Hoje eu vejo, tristemente, que Brasília nunca deveria ter sido projetada em forma de avião, mas sim de Camburão"
(Oscar Niemayer)
Aniversário de 102 Anos!
Descrição: cid:A3297CDCBB0A4C75B51A110626C86EC2@Rachel
"Projetar Brasília para os Políticos que vocês colocaram lá, foi como criar um lindo vaso de flores prá vocês usarem como pinico. Hoje eu vejo, tristemente, que Brasília nunca deveria ter sido projetada em forma de avião, mas sim de Camburão"
(Oscar Niemayer)
sexta-feira, 2 de março de 2012
Crack, epidemia de desinformação
Boa para reflexão sobre um problema cada vez mais próximo de nós.
Crack, epidemia de desinformação
By
admin
– 29 de fevereiro de 2012
Por que certas estatísticas exageram a incidência da droga, enquanto minimizam as do álcool. Quais as alternativas ao inferno das “comunidades terapêuticas”
Por Joana Moncal, Júlio Delmanto e Spensy Pimentel | Foto: Danilo Ramos, em Revista do Brasil
Estudantes, representantes de movimentos sociais, agentes pastorais e intelectuais comeram embalados por samba e forró ao vivo. Nos bares, dançava-se Racionais MCs. Os discursos eram raros e curtos, nada de comício. O churrasco daquele sábado, 14 de janeiro, apenas marcava a solidaridade à bola da vez na repressão policial em São Paulo, os usuários de drogas da área conhecida como “Cracolândia” – alvo de desastrosa operação da polícia paulista, a Ação Integrada Centro Legal, ou Operação Sufoco. A noite chegava, as pessoas se dispersavam e os usuários de crack e outros moradores de rua não usuários, também alvos da ação policial, se despediam.
“Agora, vocês vão embora, a madrugada chega, e o jogo começa outra vez”, dizia um deles. “A gente sabe que em mais umas semanas isso termina. Eles já conseguiram o que queriam, saiu na televisão.” A resignação com o absurdo da situação é mais um sintoma da falência do modelo de repressão às drogas. Como já deve ter percebido qualquer pessoa que tem na família ou entre os amigos algum caso de uso problemático dessas substâncias, violência é o que menos resolve. “A operação é voltada para o cuidado com o lugar, e não com as pessoas em estado de vulnerabilidade”, define Daniela Albuquerque, da Defensoria Pública de São Paulo, atuante no caso das operações policiais na Cracolândia.
“Esse interesse em uma ‘solução’ chega movido por politicagem na época da eleição, e nunca por motivos de ordem técnica, humanitária”, critica o psiquiatra Raul Gorayeb, 62 anos. Com mais de três décadas de experiência profissional em saúde mental, Gorayeb assessorou Secretarias de Saúde em níveis municipal e estadual.
Hoje, coordena o Centro de Referência da Infância e da Adolescência, no Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo. “Está todo mundo interessado em tirar dividendos políticos. Virou moda, a mídia ajuda. Um pouco antes do crack, era a questão de tirar as crianças de rua das ruas. Mais atrás, era a Febem. Sempre se trata de promover algum barulho”, completa.
Números?
Não dá para tirar a razão do psiquiatra e dos usuários ouvidos quando se analisa o que, de fato, justificaria o crack ter se tornado assunto da vez. A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), do Ministério da Justiça, não dispõe de números atualizados para mapear a dimensão real de sua expansão no país. A pesquisa mais recente disponível sobre o tema é o Relatório Brasileiro sobre Drogas de 2009, organizado pela Senad, mas os dados sobre o crack são de 2005. Atualmente, o governo corre contra o tempo para aprimorar seu diagnóstico. Um olhar um pouco mais criterioso sobre o que há disponível tem algo de estranho.
Por exemplo, a Confederação Nacional dos Municípios divulgou, em 2011, uma pesquisa segundo a qual 98% das cidades analisadas dizem enfrentar problemas com o crack. O estudo foi baseado em questionários enviados às prefeituras, com perguntas como: “Seu município enfrenta problemas relacionados ao consumo de drogas? Caso sim, qual: crack ou outras drogas?” Certamente o método influencia o resultado, considerando-se que a CNM é uma associação que realiza a intermediação entre governo federal e prefeituras, sempre em busca de verbas.
O que os números mais confiáveis mostram é que o álcool – droga lícita – continua sendo o que mais problemas causa: foi responsável, em 2007, por 83% das mortes (6.500) e por 69% das internações (95 mil) decorrentes de transtornos mentais e comportamentais pelo uso de drogas. No mesmo período, a incidência do crack sobre esses índices, de tão pequena, não mereceu menção na pesquisa da Senad.
“O crack não é a substância psicoativa que mais deveria ser tema de debate no Brasil, e sim o álcool. Mas, como está muito relacionado a um contexto de pobreza extrema, marginalização e ocupação de espaço público, a própria existência do seu consumidor é menos suportável”, afirma o antropólogo Maurício Fiore, integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip), formado por pesquisadores da área de ciências humanas.
É certo que têm aparecido dados sobre seu uso em lugares onde a opinião pública nem imagina (leia reportagem à página 22), mas, por enquanto, é preciso precaução. “O consumo de crack se disseminou pelo país e, ao que parece, teve um aumento razoável nos últimos anos. Mas não se trata de epidemia, e sim do fato de seu consumidor, por uma série de fatores, incomodar mais os olhos”, diz Freire.
O plano
Com pressões de todos os lados, o governo anunciou em dezembro o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, com previsão de investimentos de R$ 4 bilhões. São recursos para a prevenção ao uso, tratamento e reinserção social de usuários e enfrentamento do tráfico de crack e outras drogas ilícitas. O ponto mais polêmico diz respeito à destinação de recursos para criação de leitos nas chamadas “comunidades terapêuticas” – centros de internação para tratamento de dependentes.
Para o Conselho Federal de Psicologia (CFP), esse é um fator de alerta. “O plano se mostrou pouco inovador e, com a inclusão das comunidades terapêuticas como dispositivos do Sistema Único de Saúde, levanta-se a preocupação de que isso possa se constituir no retorno da lógica manicomial, que segrega e isola o indivíduo das suas relações sociais, familiares e do seu território cultural”, aponta o órgão, em nota divulgada recentemente.
“Muitos jovens que atendi foram moradores de comunidades terapêuticas por um tempo. As atrocidades que me contaram a que eram submetidos lá dentro são de arrepiar”, conta o psiquiatra Gorayeb. Relatório do CFP revela uma série de violações aos direitos humanos em clínicas de tratamento de usuários em todo o país. Movimentos ligados ao debate sobre a descriminalização das drogas também têm se juntado a uma campanha contra o repasse de verbas públicas para essas clínicas, frequentemente ligadas a grupos religiosos e políticos, e de resultados duvidosos.
São questionadas ainda outras ações tomadas em nome do combate ao crack. Em especial, a já mencionada Operação Sufoco em São Paulo, cuja premissa expressa pelo coordenador de Políticas sobre Drogas do governo paulista, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, era levar “dor e sofrimento” aos dependentes para que busquem tratamento.
E a internação compulsória de crianças e adolescentes em situação de rua com alto grau de dependência química, em vigor no Rio de Janeiro.
“Internações forçadas só se justificam pontualmente, por um breve período e quando há risco de morte, por exemplo”, diz a defensora Daniela Albuquerque. “Experiências na área da saúde demonstram que a internação contra a vontade do paciente tende a ser ineficaz. A adesão ao tratamento é elemento fundamental.”
Que fazer?
O fato é que o país tem poucas respostas. Embora seja reconhecida como droga violenta e destrutiva, o crack não é um beco sem saída. Vários casos evidenciam que é possível recuperar-se. Mas não há passe de mágica. “O problema das drogas não é médico na sua origem, é social”, afirma Gorayeb. O bombardeio na mídia é tão forte que, muitas vezes, parece não haver alternativa às internações, o que não é verdade. Há anos, o Sistema Único de Saúde desenvolve tratamentos baseados em atenção multidisciplinar por meio dos Centros de Atendimento Psicossocial para Álcool e Drogas (Caps-AD), com apoio de hospitais para internação em casos de crise, e estruturas da assistência social.
O problema é o déficit crônico de recursos no SUS, além do fato de que os princípios que devem guiar esse atendimento nem sempre são seguidos. “Governos tomaram os Caps para si e impuseram um funcionamento que distorceu seus princípios, que são ótimos”, diz Gorayeb – que já atuou na implementação de Caps desde sua criação.
Em 2006, no início do governo Gilberto Kassab, as ingerências políticas, segundo ele, levaram a seu afastamento da direção de um Caps Infantil no centro de São Paulo. Ele se negou a seguir a ordem da prefeitura de encaminhar as crianças de rua para internação em hospital psiquiátrico. “Estava perto das eleições e havia uma campanha de que deixariam a cidade limpa, uma clara política de higienização. Durante o tempo em que estive lá não internamos nenhuma criança trazida da rua porque não tinham indicação clínica técnica. Fui afastado do cargo.”
Enquanto o setor público sofre com problemas políticos e falta de recursos, as pessoas se viram como podem. O recifense Saint Claer Angeiras, de 27 anos, está sem usar droga há quatro. Apesar de trabalhar e estudar dentro da linha conhecida como redução de danos – que não prima pela abstinência e busca minimizar os efeitos do uso de drogas pelo diálogo com os usuários –, ele diz ter se recuperado da dependência por iniciativa própria.
“Passei meses internado, estive preso, me tratei em clínicas e em Caps, passei por todo tipo de estratégia de recuperação e nenhuma funcionou. Coloquei na balança e pesei dois cenários de como minha vida estaria depois de cinco anos: com ou sem drogas”, relata Saint Claer, acrescentando que qualquer que seja o tipo de tratamento oferecido só funcionará com disposição por parte do dependente.
Desde a morte da mãe, quando tinha 8 anos, Saint Claer viveu na rua e só conseguiu deixar o uso abusivo de crack quando optou por se tratar com afinco. Sofreu bastante por meses, mas superou essa fase, com ajuda dos profissionais de um Caps em Recife, onde inclusive passou a trabalhar. A oportunidade de emprego foi parte fundamental da recuperação, propiciando-lhe nova rotina e outras motivações. Ele integra hoje uma equipe de pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz e faz faculdade de Serviço Social.
Em São Paulo, o Centro de Convivência É de Lei é referência nacional na atuação com usuários de drogas na região central. De acordo com a psicóloga Camila Alencar, a principal característica do trabalho da organização é a busca de vínculos com o usuário. “Construímos junto com ele alternativas a um possível uso abusivo. Na maioria dos casos a ideia não é só cuidar do uso em si, mas dos muitos aspectos que o permeiam. Se você consegue ressignificar esses aspectos, o uso acaba naturalmente se modificando”, aponta Camila.
Por não lidar com as drogas de forma repressiva, a redução de danos costuma ser vista como estratégia complacente, ou até estimulante ao consumo. “Pensar a redução de danos como estímulo a drogas é o mesmo que dizer que a camisinha é um estímulo ao sexo”, refuta a psicóloga. “Não podemos esquecer que é o consumidor o principal atingido por seu uso.”
Livre e espontânea pressão
Assim como Saint Claer, o psicólogo Maurício Cotrim já teve experiências difíceis com a dependência de crack e, uma vez superada, passou a trabalhar no atendimento a pacientes com o mesmo problema. Com pai alcoólatra e mãe “passiva”, Cotrim passou a consumir crack com frequência aos 15 anos, chegando a se sentir “como um rato, praticamente desistindo de viver”. Largou o vício de forma aparentemente pouco usual: após um princípio de overdose, procurou a polícia, que o encaminhou a uma assistente social. Esta, por sua vez, propôs um tratamento em regime de internação, e ele aderiu.
Cotrim rechaça o estereótipo que relaciona o consumo de crack à miséria. “Em consultório ou nas clínicas em que atuo atendo pacientes das mais variadas classes sociais, níveis culturais e tipos de dependência: de um morador de rua ou ex-presidiário ao intelectual com ensino superior ou grande empresário, advogado etc.”
Ele não se alinha ao campo conhecido como redução de danos e diverge de sua repulsa às internações, vistas como necessárias apenas em casos extremos de risco de suicídio ou à saúde de terceiros. “Entendo as questões ligadas à luta antimanicomial, e gostaria muito que na realidade nenhum paciente necessitasse de internação, que todos se tratassem ambulatorialmente, nos grupos de NA e AA, nos consultórios particulares, mas na prática o buraco é bem mais embaixo”, acredita o psicólogo.
Tomando sua própria experiência, e a de seus pacientes, como exemplo, ele questiona a distinção normalmente feita em relação às internações: “Falar em paciente voluntário ou involuntário é muito subjetivo, pois quase nenhum dependente químico ou alcoolista chega a um tratamento, mesmo que por suas próprias pernas, porque quer. Chega ‘por livre e espontânea pressão’, como costumo dizer”.
Mesmo quem trabalha em clínicas particulares, como ele, concorda que, ao contrário do que apregoa o senso comum, a internação pura e simples não é o melhor caminho para tratar o problema. “Cada caso é um, porque cada indivíduo é único. Mas, exceto naqueles que representam um risco extremo para o dependente ou para quem convive com ele, a internação é a última opção.”
Cotrim lamenta, porém, o fato de muitas vezes ser procurado por pacientes que buscam mas não encontram tratamento no sistema público. “A demora em receber alguém para uma simples triagem é absurda”, reclama.
A caminho da saída
A conversa final no churrasco do dia 14, na “Cracolândia” paulistana, é com Lúcio Mauro Pereira Mendez, 37, que conta já ter estado “limpo” do crack por 15 anos. Durante esse período, casou duas vezes e teve três filhos. Aos 34, sofreu uma recaída e, a partir de então, vive em um albergue da prefeitura na região da Luz. Há menos de um mês está em abstinência, na luta para parar. “A filosofia de ‘só por um dia’ funciona”, conta ele, que há duas semanas não recorre ao acompanhamento que vinha tendo na “Cristolândia”, misto de igreja e centro comunitário.
A experiência de Mauro na busca por uma saída é vasta. Ele já frequentou centros do SUS e pelo menos duas clínicas particulares. Ao lembrar de como parou de usar crack da primeira vez, afirma: “A melhor clínica é a mente. Consegui parar por vontade própria, mas com muita ajuda da minha companheira na época”. Sobre a internação compulsória, diz que é o mesmo que ir para a cadeia. “Só traz revolta para o dependente. O que a gente precisa é de afeto, é de alguém que te dê a mão e diga: ‘Por aqui é mais seguro’.”
Mauro já esteve em contato com o trabalho do É de Lei. “Eles dão suporte, apoio moral, passam coisas boas. Você não se sente inferior, mas como alguém da sociedade. O usuário incomoda a sociedade. Há furtos, deselegância na rua, agressão… É difícil conviver com ele, eu sei. Mas somos humanos. Não posso ser hipócrita, fazemos parte da sociedade, mas estamos embaixo dela.” Ele diz que não vê o filho mais novo há dois anos, talvez por um pouco de orgulho próprio. “Não quero que ele me veja assim. É triste não poder andar onde você gosta por ter vergonha de si mesmo.”
Atualmente, Mauro vive um novo relacionamento, acaba de conseguir um emprego e está esperançoso. “Nós precisamos procurar ficar bem, ter um pouco de orgulho próprio. É o que quero para mim e para todos, não é fácil olhar e não ser visto.”
Crack, epidemia de desinformação
By
admin
– 29 de fevereiro de 2012
Por que certas estatísticas exageram a incidência da droga, enquanto minimizam as do álcool. Quais as alternativas ao inferno das “comunidades terapêuticas”
Por Joana Moncal, Júlio Delmanto e Spensy Pimentel | Foto: Danilo Ramos, em Revista do Brasil
Estudantes, representantes de movimentos sociais, agentes pastorais e intelectuais comeram embalados por samba e forró ao vivo. Nos bares, dançava-se Racionais MCs. Os discursos eram raros e curtos, nada de comício. O churrasco daquele sábado, 14 de janeiro, apenas marcava a solidaridade à bola da vez na repressão policial em São Paulo, os usuários de drogas da área conhecida como “Cracolândia” – alvo de desastrosa operação da polícia paulista, a Ação Integrada Centro Legal, ou Operação Sufoco. A noite chegava, as pessoas se dispersavam e os usuários de crack e outros moradores de rua não usuários, também alvos da ação policial, se despediam.
“Agora, vocês vão embora, a madrugada chega, e o jogo começa outra vez”, dizia um deles. “A gente sabe que em mais umas semanas isso termina. Eles já conseguiram o que queriam, saiu na televisão.” A resignação com o absurdo da situação é mais um sintoma da falência do modelo de repressão às drogas. Como já deve ter percebido qualquer pessoa que tem na família ou entre os amigos algum caso de uso problemático dessas substâncias, violência é o que menos resolve. “A operação é voltada para o cuidado com o lugar, e não com as pessoas em estado de vulnerabilidade”, define Daniela Albuquerque, da Defensoria Pública de São Paulo, atuante no caso das operações policiais na Cracolândia.
“Esse interesse em uma ‘solução’ chega movido por politicagem na época da eleição, e nunca por motivos de ordem técnica, humanitária”, critica o psiquiatra Raul Gorayeb, 62 anos. Com mais de três décadas de experiência profissional em saúde mental, Gorayeb assessorou Secretarias de Saúde em níveis municipal e estadual.
Hoje, coordena o Centro de Referência da Infância e da Adolescência, no Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo. “Está todo mundo interessado em tirar dividendos políticos. Virou moda, a mídia ajuda. Um pouco antes do crack, era a questão de tirar as crianças de rua das ruas. Mais atrás, era a Febem. Sempre se trata de promover algum barulho”, completa.
Números?
Não dá para tirar a razão do psiquiatra e dos usuários ouvidos quando se analisa o que, de fato, justificaria o crack ter se tornado assunto da vez. A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), do Ministério da Justiça, não dispõe de números atualizados para mapear a dimensão real de sua expansão no país. A pesquisa mais recente disponível sobre o tema é o Relatório Brasileiro sobre Drogas de 2009, organizado pela Senad, mas os dados sobre o crack são de 2005. Atualmente, o governo corre contra o tempo para aprimorar seu diagnóstico. Um olhar um pouco mais criterioso sobre o que há disponível tem algo de estranho.
Por exemplo, a Confederação Nacional dos Municípios divulgou, em 2011, uma pesquisa segundo a qual 98% das cidades analisadas dizem enfrentar problemas com o crack. O estudo foi baseado em questionários enviados às prefeituras, com perguntas como: “Seu município enfrenta problemas relacionados ao consumo de drogas? Caso sim, qual: crack ou outras drogas?” Certamente o método influencia o resultado, considerando-se que a CNM é uma associação que realiza a intermediação entre governo federal e prefeituras, sempre em busca de verbas.
O que os números mais confiáveis mostram é que o álcool – droga lícita – continua sendo o que mais problemas causa: foi responsável, em 2007, por 83% das mortes (6.500) e por 69% das internações (95 mil) decorrentes de transtornos mentais e comportamentais pelo uso de drogas. No mesmo período, a incidência do crack sobre esses índices, de tão pequena, não mereceu menção na pesquisa da Senad.
“O crack não é a substância psicoativa que mais deveria ser tema de debate no Brasil, e sim o álcool. Mas, como está muito relacionado a um contexto de pobreza extrema, marginalização e ocupação de espaço público, a própria existência do seu consumidor é menos suportável”, afirma o antropólogo Maurício Fiore, integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip), formado por pesquisadores da área de ciências humanas.
É certo que têm aparecido dados sobre seu uso em lugares onde a opinião pública nem imagina (leia reportagem à página 22), mas, por enquanto, é preciso precaução. “O consumo de crack se disseminou pelo país e, ao que parece, teve um aumento razoável nos últimos anos. Mas não se trata de epidemia, e sim do fato de seu consumidor, por uma série de fatores, incomodar mais os olhos”, diz Freire.
O plano
Com pressões de todos os lados, o governo anunciou em dezembro o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, com previsão de investimentos de R$ 4 bilhões. São recursos para a prevenção ao uso, tratamento e reinserção social de usuários e enfrentamento do tráfico de crack e outras drogas ilícitas. O ponto mais polêmico diz respeito à destinação de recursos para criação de leitos nas chamadas “comunidades terapêuticas” – centros de internação para tratamento de dependentes.
Para o Conselho Federal de Psicologia (CFP), esse é um fator de alerta. “O plano se mostrou pouco inovador e, com a inclusão das comunidades terapêuticas como dispositivos do Sistema Único de Saúde, levanta-se a preocupação de que isso possa se constituir no retorno da lógica manicomial, que segrega e isola o indivíduo das suas relações sociais, familiares e do seu território cultural”, aponta o órgão, em nota divulgada recentemente.
“Muitos jovens que atendi foram moradores de comunidades terapêuticas por um tempo. As atrocidades que me contaram a que eram submetidos lá dentro são de arrepiar”, conta o psiquiatra Gorayeb. Relatório do CFP revela uma série de violações aos direitos humanos em clínicas de tratamento de usuários em todo o país. Movimentos ligados ao debate sobre a descriminalização das drogas também têm se juntado a uma campanha contra o repasse de verbas públicas para essas clínicas, frequentemente ligadas a grupos religiosos e políticos, e de resultados duvidosos.
São questionadas ainda outras ações tomadas em nome do combate ao crack. Em especial, a já mencionada Operação Sufoco em São Paulo, cuja premissa expressa pelo coordenador de Políticas sobre Drogas do governo paulista, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, era levar “dor e sofrimento” aos dependentes para que busquem tratamento.
E a internação compulsória de crianças e adolescentes em situação de rua com alto grau de dependência química, em vigor no Rio de Janeiro.
“Internações forçadas só se justificam pontualmente, por um breve período e quando há risco de morte, por exemplo”, diz a defensora Daniela Albuquerque. “Experiências na área da saúde demonstram que a internação contra a vontade do paciente tende a ser ineficaz. A adesão ao tratamento é elemento fundamental.”
Que fazer?
O fato é que o país tem poucas respostas. Embora seja reconhecida como droga violenta e destrutiva, o crack não é um beco sem saída. Vários casos evidenciam que é possível recuperar-se. Mas não há passe de mágica. “O problema das drogas não é médico na sua origem, é social”, afirma Gorayeb. O bombardeio na mídia é tão forte que, muitas vezes, parece não haver alternativa às internações, o que não é verdade. Há anos, o Sistema Único de Saúde desenvolve tratamentos baseados em atenção multidisciplinar por meio dos Centros de Atendimento Psicossocial para Álcool e Drogas (Caps-AD), com apoio de hospitais para internação em casos de crise, e estruturas da assistência social.
O problema é o déficit crônico de recursos no SUS, além do fato de que os princípios que devem guiar esse atendimento nem sempre são seguidos. “Governos tomaram os Caps para si e impuseram um funcionamento que distorceu seus princípios, que são ótimos”, diz Gorayeb – que já atuou na implementação de Caps desde sua criação.
Em 2006, no início do governo Gilberto Kassab, as ingerências políticas, segundo ele, levaram a seu afastamento da direção de um Caps Infantil no centro de São Paulo. Ele se negou a seguir a ordem da prefeitura de encaminhar as crianças de rua para internação em hospital psiquiátrico. “Estava perto das eleições e havia uma campanha de que deixariam a cidade limpa, uma clara política de higienização. Durante o tempo em que estive lá não internamos nenhuma criança trazida da rua porque não tinham indicação clínica técnica. Fui afastado do cargo.”
Enquanto o setor público sofre com problemas políticos e falta de recursos, as pessoas se viram como podem. O recifense Saint Claer Angeiras, de 27 anos, está sem usar droga há quatro. Apesar de trabalhar e estudar dentro da linha conhecida como redução de danos – que não prima pela abstinência e busca minimizar os efeitos do uso de drogas pelo diálogo com os usuários –, ele diz ter se recuperado da dependência por iniciativa própria.
“Passei meses internado, estive preso, me tratei em clínicas e em Caps, passei por todo tipo de estratégia de recuperação e nenhuma funcionou. Coloquei na balança e pesei dois cenários de como minha vida estaria depois de cinco anos: com ou sem drogas”, relata Saint Claer, acrescentando que qualquer que seja o tipo de tratamento oferecido só funcionará com disposição por parte do dependente.
Desde a morte da mãe, quando tinha 8 anos, Saint Claer viveu na rua e só conseguiu deixar o uso abusivo de crack quando optou por se tratar com afinco. Sofreu bastante por meses, mas superou essa fase, com ajuda dos profissionais de um Caps em Recife, onde inclusive passou a trabalhar. A oportunidade de emprego foi parte fundamental da recuperação, propiciando-lhe nova rotina e outras motivações. Ele integra hoje uma equipe de pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz e faz faculdade de Serviço Social.
Em São Paulo, o Centro de Convivência É de Lei é referência nacional na atuação com usuários de drogas na região central. De acordo com a psicóloga Camila Alencar, a principal característica do trabalho da organização é a busca de vínculos com o usuário. “Construímos junto com ele alternativas a um possível uso abusivo. Na maioria dos casos a ideia não é só cuidar do uso em si, mas dos muitos aspectos que o permeiam. Se você consegue ressignificar esses aspectos, o uso acaba naturalmente se modificando”, aponta Camila.
Por não lidar com as drogas de forma repressiva, a redução de danos costuma ser vista como estratégia complacente, ou até estimulante ao consumo. “Pensar a redução de danos como estímulo a drogas é o mesmo que dizer que a camisinha é um estímulo ao sexo”, refuta a psicóloga. “Não podemos esquecer que é o consumidor o principal atingido por seu uso.”
Livre e espontânea pressão
Assim como Saint Claer, o psicólogo Maurício Cotrim já teve experiências difíceis com a dependência de crack e, uma vez superada, passou a trabalhar no atendimento a pacientes com o mesmo problema. Com pai alcoólatra e mãe “passiva”, Cotrim passou a consumir crack com frequência aos 15 anos, chegando a se sentir “como um rato, praticamente desistindo de viver”. Largou o vício de forma aparentemente pouco usual: após um princípio de overdose, procurou a polícia, que o encaminhou a uma assistente social. Esta, por sua vez, propôs um tratamento em regime de internação, e ele aderiu.
Cotrim rechaça o estereótipo que relaciona o consumo de crack à miséria. “Em consultório ou nas clínicas em que atuo atendo pacientes das mais variadas classes sociais, níveis culturais e tipos de dependência: de um morador de rua ou ex-presidiário ao intelectual com ensino superior ou grande empresário, advogado etc.”
Ele não se alinha ao campo conhecido como redução de danos e diverge de sua repulsa às internações, vistas como necessárias apenas em casos extremos de risco de suicídio ou à saúde de terceiros. “Entendo as questões ligadas à luta antimanicomial, e gostaria muito que na realidade nenhum paciente necessitasse de internação, que todos se tratassem ambulatorialmente, nos grupos de NA e AA, nos consultórios particulares, mas na prática o buraco é bem mais embaixo”, acredita o psicólogo.
Tomando sua própria experiência, e a de seus pacientes, como exemplo, ele questiona a distinção normalmente feita em relação às internações: “Falar em paciente voluntário ou involuntário é muito subjetivo, pois quase nenhum dependente químico ou alcoolista chega a um tratamento, mesmo que por suas próprias pernas, porque quer. Chega ‘por livre e espontânea pressão’, como costumo dizer”.
Mesmo quem trabalha em clínicas particulares, como ele, concorda que, ao contrário do que apregoa o senso comum, a internação pura e simples não é o melhor caminho para tratar o problema. “Cada caso é um, porque cada indivíduo é único. Mas, exceto naqueles que representam um risco extremo para o dependente ou para quem convive com ele, a internação é a última opção.”
Cotrim lamenta, porém, o fato de muitas vezes ser procurado por pacientes que buscam mas não encontram tratamento no sistema público. “A demora em receber alguém para uma simples triagem é absurda”, reclama.
A caminho da saída
A conversa final no churrasco do dia 14, na “Cracolândia” paulistana, é com Lúcio Mauro Pereira Mendez, 37, que conta já ter estado “limpo” do crack por 15 anos. Durante esse período, casou duas vezes e teve três filhos. Aos 34, sofreu uma recaída e, a partir de então, vive em um albergue da prefeitura na região da Luz. Há menos de um mês está em abstinência, na luta para parar. “A filosofia de ‘só por um dia’ funciona”, conta ele, que há duas semanas não recorre ao acompanhamento que vinha tendo na “Cristolândia”, misto de igreja e centro comunitário.
A experiência de Mauro na busca por uma saída é vasta. Ele já frequentou centros do SUS e pelo menos duas clínicas particulares. Ao lembrar de como parou de usar crack da primeira vez, afirma: “A melhor clínica é a mente. Consegui parar por vontade própria, mas com muita ajuda da minha companheira na época”. Sobre a internação compulsória, diz que é o mesmo que ir para a cadeia. “Só traz revolta para o dependente. O que a gente precisa é de afeto, é de alguém que te dê a mão e diga: ‘Por aqui é mais seguro’.”
Mauro já esteve em contato com o trabalho do É de Lei. “Eles dão suporte, apoio moral, passam coisas boas. Você não se sente inferior, mas como alguém da sociedade. O usuário incomoda a sociedade. Há furtos, deselegância na rua, agressão… É difícil conviver com ele, eu sei. Mas somos humanos. Não posso ser hipócrita, fazemos parte da sociedade, mas estamos embaixo dela.” Ele diz que não vê o filho mais novo há dois anos, talvez por um pouco de orgulho próprio. “Não quero que ele me veja assim. É triste não poder andar onde você gosta por ter vergonha de si mesmo.”
Atualmente, Mauro vive um novo relacionamento, acaba de conseguir um emprego e está esperançoso. “Nós precisamos procurar ficar bem, ter um pouco de orgulho próprio. É o que quero para mim e para todos, não é fácil olhar e não ser visto.”
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
O que é ser deficiente?
Ser deficiente, é ser antes de tudo, em primeiro lugar, uma pessoa; em segundo lugar, uma pessoa com deficiência; seja esta qual for:física, auditiva, visual, mental, etc, etc, etc......
Com todas as diferenças que nos marcam como contraponto de uma sociedade cada vez mais levada a consumir o que é esteticamente bonito, a diferença se torna mais notável, principalmente quando se foge do lugar comum. Há várias deficiências, e cada uma delas carrega em sí, suas próprias características, o que as iguala de um modo geral é a profunda marca do preconceito, mesmo nos dias de hoje. O fato de termos hoje o discurso politicamente correto, de igualdade, de termos legislações que nos protegem e nos dão a possibilidade de levarmos uma vida mais digna, não trouxe necessariamente o sentimento de alteridade, ou seja, de aprender com as pessoas com deficiência, que a vida é adaptável, e nos moldamos a ela com as nossas possibilidades.
Quando falamos dos direitos das pessoas com deficiência, falamos de direitos humanos, mas temos que propor uma sociedade, em que estes direitos, não só das pessoas com deficiência, mas de todos os excluídos, sejam auto evidentes; de uma sociedade alteritária. Voltando às pessoas com deficiência, com os avanços da ciência, fomos atingindo um nível melhor de qualidade de vida, com equipamentos cada vez mais desenvolvidos para atender as nossas necessidades e aí, esbarramos em uma outra questão, que diferencia, a todos nós, deficientes ou não; a questão econômica, no caso das pessoas com deficiência, quem terá acesso a esses equipamentos, pois é um problema de difícil solução e que separa as pessoas com deficiência ricas das pobres, este é um bom tema para refletir.
Um abraços à todos, Cláudio;
O que nossos filhos merecem? Uma reflexão
É bom uma lida, não só para os pais, filhos, mas também quem se acha detentor de todos os direitos à felicidade, um abraço.
Meu filho, você não merece nada
A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada
Eliane Brum
ELIANE BRUM
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
E-mail: elianebrum@uol.com.br
Twitter: @brumelianebrum
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
E-mail: elianebrum@uol.com.br
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Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.
Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
- Outras colunas de Eliane Brum: O amor que sabe do tempo e do vento; A coluna que (quase) ninguém lê; "Minhas raízes são aéreas"; Na pele do outro
Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.
A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.
Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.
Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.
Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.
O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.
Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.
Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.
Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.
(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.) Revista Época
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Crack é usado por miseráveis por que é barato.
É extenso o texto, mas pela relevância do assunto, acho que merece ser lido e pensado e refletido, pois a tendencia a tornar essas ações policialescas mais frequentes em todo o país é grande e precisamos estar atentos aos desrespeito aos Direitos Humanos destas pessoas.Um abraço, Cláudio.Crack é usado por miseráveis porque é barato
A explicação é tão simples que parece óbvia, mas para o especialista Dartiu Xavier da Silveira apenas o preço define o fato de que na Cracolância se fuma o crack. A droga vicia tanto quanto qualquer outra, inclusive o álcool, e as taxas de sucesso no tratamento são as mesmas. A diferença é que, neste caso, o “ser miserável” precede o “fumar crack”. Qualquer política de combate ao uso da droga tende ao fracasso, se não for precedida de uma política social conseqüente. Silveira define o lobby da comunidade terapêutica para drogados junto ao Sistema Único de Saúde (SUS) como “pesado”, e diz que a ação policial na Cracolândia é simplesmente “política e midiática”. A reportagem é de Maria Inês Nassif.
Maria Inês Nassif
São Paulo - O grande equívoco da ação policial do governo do Estado de São Paulo e da prefeitura da capital na chamada Cracolândia, o perímetro onde se aglomeram moradores de rua e dependentes de crack na cidade, definiu, de cara, o fracasso da operação: o poder público partiu do princípio de que a droga colocou aqueles usuários em situação de miséria, quando na verdade foi a miséria que os levou à droga. Esse erro de avaliação, segundo o psiquiatra e professor Dartiu Xavier da Silveira, por si só já desqualifica a ação policial.
Professor do Departamento de Psiquiatria e coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (PROAD), Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, Silveira há 25 anos orienta pesquisas com usuários de drogas e moradores de rua, normalmente patrocinadas pela Organização das Nações Unidas, e tem sido consultor do Ministério da Saúde na definição do Plano de Combate ao Crack. Nas horas vagas, ele desmistifica os argumentos usados pela prefeitura, município e uma parcela de psiquiatras sobre usuários de drogas.
A primeira contestação é essa: o abandono social vem antes, o crack vem depois. E a política social tem que preceder qualquer ação junto a essa comunidade, inclusive a médica.
Outras desmistificações vêm a tiracolo. O crack é droga pesada, concorda ele, mas o dependente da droga tem as mesmas chances de cair no vício do que um usuário de álcool, por exemplo. “Em qualquer droga existem os usuários ocasionais e os dependentes”, diz o médico. Inclusive no caso do crack. O tratamento por internação compulsória de qualquer uma – álcool, cocaína etc – situa-se na ordem de 2%, ou seja, 98% dos usuários internados compulsoriamente, inclusive os de crack, não conseguem manter abstinência. O tratamento ambulatorial garante a maior taxa de sucesso, de 35% a 40% dos usuários tratados. Isso também vale para os usuários de crack.
Daí, outra mistificação é derrubada pelo médico: não se joga simplesmente fora os outros 60% a 65% que não vão conseguir se manter abstinentes. Do ponto de vista da saúde pública, é um ganho se o usuário se beneficiar de uma política de redução dos riscos. “O usuário não vai parar, mas pode reduzir o uso e até estudar ou trabalhar”, afirma. Isso vale também para o viciado em crack.
Por que o crack e não outra droga? Porque a população miserável só pode comprar o crack. Existem usuários de classe média, concorda Silveira, mas crack, pobreza e população em situação de rua são situações que convergem. “A gente sempre tem essa noção de que a rua é um espaço horrível, e é mesmo, mas em muitos casos a situação da família é tão agressiva que é um alivio para a criança estar fora de casa.”
Com todas essas evidências de que o problema da Cracolândia é fundamentalmente social, Silveira apenas consegue atribuir ações policiais na área e a defesa instransigente que políticos e profissionais de saúde fazem da internação compulsória como ligadas a “causas menos nobres”. Que envolvem também interesses econômicos de alguns médicos.
CARTA MAIOR: Como o crack pode deixar de ser tratado como um caso de polícia para tornar-se política pública?
DARTIU XAVIER DA SILVEIRA: Essa ação (policial) na Cracolândia começou com um equívoco básico, que é atribuir aquela situação à presença da droga. É como se a droga tivesse colocado aquelas pessoas em situação de miséria, e isso não é verdade. Todos os estudos feitos com população de rua mostram que, na realidade, o que leva essas pessoas ao crack é a exclusão social, a falta de acesso à educação, saúde e moradia, ou seja, a privação da própria cidadania e identidade. Isto, sim, é um fator de risco para a droga. A droga vem porque tem um prato cheio para florescer. A droga é consequência, não é causa disso.
CARTA MAIOR: Então, essa história de que o crack está atingindo as famílias de classe média no geral é uma bobagem?
SILVEIRA: Ela atinge também a classe média, mas não com a gravidade com que atinge as pessoas mais pobres, porque a situação delas é grave do ponto de vista social, não apenas do ponto de vista do consumo da droga. É uma população mais vulnerável. E por que é o crack? Porque é a droga mais barata para essa população mais miserável. Se fosse na Europa não seria o crack. As populações excluídas da Europa do Leste também abusam, mas de heroína ou de álcool, porque lá crack seria muito caro. Mas essa é a situação que se vê no mundo inteiro entre as populações excluídas. O abuso de drogas é igual, só que a droga usada é a mais barata. Por conta desse equívoco básico, existe esse discurso que diaboliza o crack, faz da droga a causa de tudo.
CARTA MAIOR: A política social, então, deve preceder qualquer outro tipo de política?
SILVEIRA: Exatamente. Existe outro dado alarmante, e as pessoas se esquecem disso, que é um dado epidemiológico. As pesquisas mostram: pode pegar qualquer droga, lícita ou ilícita – álcool, cocaína, qualquer substância. Existem sempre os usuários ocasionais e as pessoas que são dependentes. E isso ocorre também com o crack. Até para drogas pesadas existem usuários ocasionais. Do ponto de vista médico, as pesquisas são direcionadas para entender isso: por que, por exemplo, pessoas conseguem beber socialmente e outras viram alcoólatras. Por que tem gente que consegue cheirar cocaína esporadicamente e tem gente que é dependente? As respostas são muito parecidas. O que vai diferenciar um usuário ocasional de um dependente são outros fatores que não têm nada a ver com a droga: se a pessoa tem outro problema psíquico associado, como depressão e ansiedade, e começa a usar o álcool e a cocaína para resolver problemas, ou situações de muito stress... Numa situação como a das pessoas que vivem na Cracolândia, ser morador de rua já é, por si só, uma situação de risco.
CARTA MAIOR: No caso de criança é uma situação de abandono completo? Não dá para imaginar uma criança com grande problema psíquico ou stress em condições minimamente normais, não é?
SILVEIRA: Sim, é uma situação de abandono completo. O stress que estou falando é de forma geral, que afeta também a classe média. Na situação da Cracolândia, o abandono é fundamentalmente a situação de risco. Têm crianças de classe média que abusam de algumas drogas também, mas elas normalmente vêm de famílias muito desestruturadas, têm pais muito agressivos. Esse não é um ‘privilégio’ da classe desfavorecida. Mas numa situação extrema de crianças de rua, o risco é altíssimo, porque essa criança é privada de tudo.
CARTA MAIOR: Como é a família de uma criança de rua e usuária de droga? Ela tem alguma possibilidade de reatar laços afetivos?
SILVEIRA: Algumas famílias têm condições, e quanto a gente identifica essa possibilidade, faz a intermediação. Outras famílias, não. A gente tem sempre essa noção de que a rua é um espaço horrível – e é mesmo horrível morar na rua – mas em muitos casos a situação da família é tão agressiva que ir para a rua é um alívio para a criança. Por exemplo, muitas crianças vão para a rua porque não aguentam o abuso sexual dentro de casa, por parte do pai, ou do irmão mais velho. Ir para a rua pode ser uma progressão positiva, pode representar escapar de uma situação muito inóspita de vida. Tem uma situação até emblemática, relatada em um trabalho que fizemos com adolescentes de rua. Identificamos vários adolescentes usando drogas. A uma delas, a gente perguntou: por que você usa droga, o que você está procurando na droga? A resposta dela foi um tapa na cara da gente. Ela virou e disse: ‘olha, tio (veja você, uma cabecinha de criança, me chamando de tio), eu nem gosto muito do efeito da droga, mas o problema é que para eu sobreviver na rua eu preciso me prostituir, e para eu suportar uma relação sexual com um adulto só sob o efeito de droga.’ Agora, como dizer que a droga é um problema na vida dessa menina? A droga é uma forma de solução, para ela conseguir sobreviver. A droga já é consequência de uma situação de prostituição que ela foi obrigada a encarar por omissão do Estado, da sociedade como um todo. O depoimento dessa menina torna todas essas justificativas para as ações feitas na Cracolândia uma hipocrisia, uma total falta de sensibilidade para reconhecer o fenômeno.
CARTA MAIOR: Outro mito do crack é que é a droga definitiva, que é impossível livrar-se dela. Isso é verdade?
SILVEIRA: É um mito completo. Ela não é uma droga pior que heroína, que a cocaína, em termos de grau de dependência. É difícil sair? É, mas é difícil como qualquer droga. O crack não é pior.
CARTA MAIOR: Então, para essa população, a questão é muito mais uma política social do que médica.
SILVEIRA: Exatamente. Por isso que os trabalhos mais bem-sucedidos são os feitos in loco, por meio de educadores de rua, desses agentes de saúde. Não são médicos que vão fazer uma consulta médica na rua. A gente chama de consultório de rua mas não é um consultório. A equipe vai investigar o que está acontecendo caso a caso, se a pessoa está com falta do quê, de lugar para morar, ou o problema é o relacionamento com a família, ou o problema é assédio de algum tipo, por parte de alguém. É uma coisa mais social, mesmo.
CARTA MAIOR: É um encaminhamento de assistência social e os profissionais de saúde só entram quando for o caso para aquela pessoa?
SILVEIRA: Frequentemente os aspectos psicológicos são muito relevantes, porque essas crianças estão psicologicamente abaladas – não apenas elas, aliás, mas os jovens, os moradores de rua em geral. Mas a intervenção médica, mesmo nesses casos – e não estou desqualificando a importância dela – não é primordial.
CARTA MAIOR: Então a intervenção médica é só para casos extremos.
SILVEIRA: Exatamente.
CARTA MAIOR: E desde que não seja internação compulsória?
SILVEIRA: Desde que não seja compulsória. As experiências de internação compulsória são simplesmente um fracasso. As taxas de insucesso chegam a 98%. Na hora que você interna compulsoriamente uma pessoa, ela não vai ter acesso à droga porque está em isolamento social. Nessa condição, é fácil para um dependente se manter abstinente. Na hora que sair de lá e voltar para os problemas da vida, no entanto, essa pessoa recai. 98% recaem. Isso, sem questionar que o governo não tem equipamento para fazer internação compulsória de todo mundo. As internações são feitas geralmente em verdadeiros depósitos de drogados. Parecem mais um campo de concentração do que uma estrutura hospitalar.
CARTA MAIOR: E é tudo privatizado, não é?
SILVEIRA: E a privatização não melhorou nada essa situação. Os hospitais psiquiátricos privados têm um custo baixíssimo. A economia é feita com a contratação de pessoal. Não existem equipes adequadas para tratar esses dependentes. É um trabalho muito porco, de segunda categoria.
CARTA MAIOR: Esse atendimento privado se misturou muito com religião?
SILVEIRA: Sim, e isso não é bom. Eu não tenho nada contra religião, não é uma questão de princípio, mas o que se vê são diversos grupos religiosos montando o que eles chamam de “comunidades terapêuticas” que partem do princípio de que só a intenção e a conversão religiosa são fator de cura. A maioria dos casos não tem bom resultado. E por quê? Porque a gente sabe que o melhor tipo de tratamento para a dependência química é feito por uma equipe multidisciplinar. A grande maioria das comunidades terapêuticas não tem equipes para trabalhar com dependentes.
CARTA MAIOR: O relatório do Conselho Federal de Medicina sobre as clínicas de tratamento para drogados é impressionante.
SILVEIRA: O relatório é dramático. E é verdadeiro. No relatório tem até denúncias de abuso, espancamento, maus-tratos a pacientes, ou seja, não são pessoas minimamente capacitadas para darem conta do problema que estão lidando com os usuários nesses lugares.
CARTA MAIOR: Isso acaba sendo a reintrodução do manicômio, mas para dependente químico?
SILVEIRA: Exatamente. A Lei Antimanicomial vai por água abaixo, porque o sistema manicomial está voltando sob a justificativa de que a droga demanda uma intervenção urgente. E isso não é verdade.
CARTA MAIOR: Isso está sendo um motivo de discórdia grande dentro da sua área de especialidade? Não faz muito tempo, a luta pela Lei Antimanicomial foi abraçada como uma luta pelos Direitos Humanos.
SILVEIRA: E a lei foi um ganho muito importante. Só vou abrir parênteses nessa questão: eu não sou contra a internação, eu interno meus pacientes, mas apenas quando eles precisam. Eu não interno por questão social, ou porque a família está me pressionando, ou porque não se aguenta o paciente em casa. Os abusos que se cometiam nessas internações, isso acho intolerável, se internava muito mais do que era necessário. Hoje em dia se interna ainda, é importante ter espaços de internação, mas é para casos excepcionais, não para a regra. É para surto psicótico ou risco de suicídio. Ponto. Não tem outra aplicação.
CARTA MAIOR: Dos programas que estão sendo anunciados por município, Estados e União, tem algum que não assume essas orientação da internação compulsória?
SILVEIRA: Os programas de intervenção mais eficazes para dependentes são os que adotam o modelo ambulatorial, onde o paciente aprende a se manter abstinente convivendo em sociedade, com a ajuda de uma equipe multidisciplinar. Essa proposta estaria plenamente contemplada nas orientações do Ministério da Saúde e dentro da filosofia do Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS), e existe um número mínimo de CAPS para fazer esse trabalho. O problema, no entanto, são as equipes dos CAPS – falta gente e falta gente bem treinada. Existem exceções, é lógico, como o da Água Funda, um modelo que deu muito certo. Porque não é desumano.
CARTA MAIOR: Ainda assim os resultados são melhores do que a internação compulsória?
SILVEIRA: Em regra, os melhores resultados, em relação à dependência química, giram em torno de 35% a 40%, contra os 2% da internação compulsória. Os que sobram, de 60% a 65%, no entanto, não podem ser apenas considerados um fracasso e pronto. O que nós aprendemos nos últimos anos é que mesmo as pessoas que não conseguem ficar em abstinência podem se beneficiar de política de redução de danos. Esse usuário pode não vai ficar completamente abstinente, não vai parar, mas vai se drogar com uma frequência menor, em circunstâncias de menos risco. Do ponto de vista da saúde pública, é um avanço se esse usuário for mantido em condições de estudar, trabalhar, levar uma vida normal.
CARTA MAIOR: A internação ajuda a desintoxicação inicial, ao menos?
SILVEIRA: A desintoxicação não precisa ser feita na internação, e se as pessoas forem internadas, o ideal é que não ultrapasse os 90 dias. Para a grande maioria das pessoas, é possível fazer a desintoxicação com medicamentos que tiram a crise de abstinência. Elas podem levar vida normal. Isso já é possível com o avanço da medicina. Os CAPS-AD (específicos para dependentes de álcool e drogas) têm esse tipo de medicação, mas poucas equipes capacitadas a administrá-las.
CARTA MAIOR: Se as diferenças de resultado são tão grandes, por que ainda se defende a internação?
SILVEIRA: As causas para defesa da internação não são nada nobres. Em primeiro lugar, acho que a ação feita na Cracolândia foi uma mera ação política e midiática. Para uma população menos informada, a impressão que se tem, numa ação policial como essa, é que o poder público está desempenhando muito bem suas funções. A grande maioria das pessoas que defende a internação compulsória ou é despreparada, ou é de médicos que têm interesses econômicos nisso. Como o SUS (Sistema Único de Saúde) não tem leitos para atender uma demanda dessa, vai ter que contratar leitos de hospitais particulares. E isso interessa a muitos médicos.
CARTA MAIOR: O lobby das clínicas é pesado, então?
SILVEIRA: A atual gestão do Ministério da Saúde é muito séria e está tentando fazer o melhor possível, mas enfrenta uma série de problemas. O pior deles é, de fato, o grande lobby da comunidade terapêutica para drogados junto ao SUS. O Ministério está sendo obrigado a engolir goela abaixo essas pressões, em prejuízo de seu próprio projeto, que é muito mais eficiente.
Professor do Departamento de Psiquiatria e coordenador do Programa de Orientação e Assistência a Dependentes (PROAD), Faculdade de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, Silveira há 25 anos orienta pesquisas com usuários de drogas e moradores de rua, normalmente patrocinadas pela Organização das Nações Unidas, e tem sido consultor do Ministério da Saúde na definição do Plano de Combate ao Crack. Nas horas vagas, ele desmistifica os argumentos usados pela prefeitura, município e uma parcela de psiquiatras sobre usuários de drogas.
A primeira contestação é essa: o abandono social vem antes, o crack vem depois. E a política social tem que preceder qualquer ação junto a essa comunidade, inclusive a médica.
Outras desmistificações vêm a tiracolo. O crack é droga pesada, concorda ele, mas o dependente da droga tem as mesmas chances de cair no vício do que um usuário de álcool, por exemplo. “Em qualquer droga existem os usuários ocasionais e os dependentes”, diz o médico. Inclusive no caso do crack. O tratamento por internação compulsória de qualquer uma – álcool, cocaína etc – situa-se na ordem de 2%, ou seja, 98% dos usuários internados compulsoriamente, inclusive os de crack, não conseguem manter abstinência. O tratamento ambulatorial garante a maior taxa de sucesso, de 35% a 40% dos usuários tratados. Isso também vale para os usuários de crack.
Daí, outra mistificação é derrubada pelo médico: não se joga simplesmente fora os outros 60% a 65% que não vão conseguir se manter abstinentes. Do ponto de vista da saúde pública, é um ganho se o usuário se beneficiar de uma política de redução dos riscos. “O usuário não vai parar, mas pode reduzir o uso e até estudar ou trabalhar”, afirma. Isso vale também para o viciado em crack.
Por que o crack e não outra droga? Porque a população miserável só pode comprar o crack. Existem usuários de classe média, concorda Silveira, mas crack, pobreza e população em situação de rua são situações que convergem. “A gente sempre tem essa noção de que a rua é um espaço horrível, e é mesmo, mas em muitos casos a situação da família é tão agressiva que é um alivio para a criança estar fora de casa.”
Com todas essas evidências de que o problema da Cracolândia é fundamentalmente social, Silveira apenas consegue atribuir ações policiais na área e a defesa instransigente que políticos e profissionais de saúde fazem da internação compulsória como ligadas a “causas menos nobres”. Que envolvem também interesses econômicos de alguns médicos.
CARTA MAIOR: Como o crack pode deixar de ser tratado como um caso de polícia para tornar-se política pública?
DARTIU XAVIER DA SILVEIRA: Essa ação (policial) na Cracolândia começou com um equívoco básico, que é atribuir aquela situação à presença da droga. É como se a droga tivesse colocado aquelas pessoas em situação de miséria, e isso não é verdade. Todos os estudos feitos com população de rua mostram que, na realidade, o que leva essas pessoas ao crack é a exclusão social, a falta de acesso à educação, saúde e moradia, ou seja, a privação da própria cidadania e identidade. Isto, sim, é um fator de risco para a droga. A droga vem porque tem um prato cheio para florescer. A droga é consequência, não é causa disso.
CARTA MAIOR: Então, essa história de que o crack está atingindo as famílias de classe média no geral é uma bobagem?
SILVEIRA: Ela atinge também a classe média, mas não com a gravidade com que atinge as pessoas mais pobres, porque a situação delas é grave do ponto de vista social, não apenas do ponto de vista do consumo da droga. É uma população mais vulnerável. E por que é o crack? Porque é a droga mais barata para essa população mais miserável. Se fosse na Europa não seria o crack. As populações excluídas da Europa do Leste também abusam, mas de heroína ou de álcool, porque lá crack seria muito caro. Mas essa é a situação que se vê no mundo inteiro entre as populações excluídas. O abuso de drogas é igual, só que a droga usada é a mais barata. Por conta desse equívoco básico, existe esse discurso que diaboliza o crack, faz da droga a causa de tudo.
CARTA MAIOR: A política social, então, deve preceder qualquer outro tipo de política?
SILVEIRA: Exatamente. Existe outro dado alarmante, e as pessoas se esquecem disso, que é um dado epidemiológico. As pesquisas mostram: pode pegar qualquer droga, lícita ou ilícita – álcool, cocaína, qualquer substância. Existem sempre os usuários ocasionais e as pessoas que são dependentes. E isso ocorre também com o crack. Até para drogas pesadas existem usuários ocasionais. Do ponto de vista médico, as pesquisas são direcionadas para entender isso: por que, por exemplo, pessoas conseguem beber socialmente e outras viram alcoólatras. Por que tem gente que consegue cheirar cocaína esporadicamente e tem gente que é dependente? As respostas são muito parecidas. O que vai diferenciar um usuário ocasional de um dependente são outros fatores que não têm nada a ver com a droga: se a pessoa tem outro problema psíquico associado, como depressão e ansiedade, e começa a usar o álcool e a cocaína para resolver problemas, ou situações de muito stress... Numa situação como a das pessoas que vivem na Cracolândia, ser morador de rua já é, por si só, uma situação de risco.
CARTA MAIOR: No caso de criança é uma situação de abandono completo? Não dá para imaginar uma criança com grande problema psíquico ou stress em condições minimamente normais, não é?
SILVEIRA: Sim, é uma situação de abandono completo. O stress que estou falando é de forma geral, que afeta também a classe média. Na situação da Cracolândia, o abandono é fundamentalmente a situação de risco. Têm crianças de classe média que abusam de algumas drogas também, mas elas normalmente vêm de famílias muito desestruturadas, têm pais muito agressivos. Esse não é um ‘privilégio’ da classe desfavorecida. Mas numa situação extrema de crianças de rua, o risco é altíssimo, porque essa criança é privada de tudo.
CARTA MAIOR: Como é a família de uma criança de rua e usuária de droga? Ela tem alguma possibilidade de reatar laços afetivos?
SILVEIRA: Algumas famílias têm condições, e quanto a gente identifica essa possibilidade, faz a intermediação. Outras famílias, não. A gente tem sempre essa noção de que a rua é um espaço horrível – e é mesmo horrível morar na rua – mas em muitos casos a situação da família é tão agressiva que ir para a rua é um alívio para a criança. Por exemplo, muitas crianças vão para a rua porque não aguentam o abuso sexual dentro de casa, por parte do pai, ou do irmão mais velho. Ir para a rua pode ser uma progressão positiva, pode representar escapar de uma situação muito inóspita de vida. Tem uma situação até emblemática, relatada em um trabalho que fizemos com adolescentes de rua. Identificamos vários adolescentes usando drogas. A uma delas, a gente perguntou: por que você usa droga, o que você está procurando na droga? A resposta dela foi um tapa na cara da gente. Ela virou e disse: ‘olha, tio (veja você, uma cabecinha de criança, me chamando de tio), eu nem gosto muito do efeito da droga, mas o problema é que para eu sobreviver na rua eu preciso me prostituir, e para eu suportar uma relação sexual com um adulto só sob o efeito de droga.’ Agora, como dizer que a droga é um problema na vida dessa menina? A droga é uma forma de solução, para ela conseguir sobreviver. A droga já é consequência de uma situação de prostituição que ela foi obrigada a encarar por omissão do Estado, da sociedade como um todo. O depoimento dessa menina torna todas essas justificativas para as ações feitas na Cracolândia uma hipocrisia, uma total falta de sensibilidade para reconhecer o fenômeno.
CARTA MAIOR: Outro mito do crack é que é a droga definitiva, que é impossível livrar-se dela. Isso é verdade?
SILVEIRA: É um mito completo. Ela não é uma droga pior que heroína, que a cocaína, em termos de grau de dependência. É difícil sair? É, mas é difícil como qualquer droga. O crack não é pior.
CARTA MAIOR: Então, para essa população, a questão é muito mais uma política social do que médica.
SILVEIRA: Exatamente. Por isso que os trabalhos mais bem-sucedidos são os feitos in loco, por meio de educadores de rua, desses agentes de saúde. Não são médicos que vão fazer uma consulta médica na rua. A gente chama de consultório de rua mas não é um consultório. A equipe vai investigar o que está acontecendo caso a caso, se a pessoa está com falta do quê, de lugar para morar, ou o problema é o relacionamento com a família, ou o problema é assédio de algum tipo, por parte de alguém. É uma coisa mais social, mesmo.
CARTA MAIOR: É um encaminhamento de assistência social e os profissionais de saúde só entram quando for o caso para aquela pessoa?
SILVEIRA: Frequentemente os aspectos psicológicos são muito relevantes, porque essas crianças estão psicologicamente abaladas – não apenas elas, aliás, mas os jovens, os moradores de rua em geral. Mas a intervenção médica, mesmo nesses casos – e não estou desqualificando a importância dela – não é primordial.
CARTA MAIOR: Então a intervenção médica é só para casos extremos.
SILVEIRA: Exatamente.
CARTA MAIOR: E desde que não seja internação compulsória?
SILVEIRA: Desde que não seja compulsória. As experiências de internação compulsória são simplesmente um fracasso. As taxas de insucesso chegam a 98%. Na hora que você interna compulsoriamente uma pessoa, ela não vai ter acesso à droga porque está em isolamento social. Nessa condição, é fácil para um dependente se manter abstinente. Na hora que sair de lá e voltar para os problemas da vida, no entanto, essa pessoa recai. 98% recaem. Isso, sem questionar que o governo não tem equipamento para fazer internação compulsória de todo mundo. As internações são feitas geralmente em verdadeiros depósitos de drogados. Parecem mais um campo de concentração do que uma estrutura hospitalar.
CARTA MAIOR: E é tudo privatizado, não é?
SILVEIRA: E a privatização não melhorou nada essa situação. Os hospitais psiquiátricos privados têm um custo baixíssimo. A economia é feita com a contratação de pessoal. Não existem equipes adequadas para tratar esses dependentes. É um trabalho muito porco, de segunda categoria.
CARTA MAIOR: Esse atendimento privado se misturou muito com religião?
SILVEIRA: Sim, e isso não é bom. Eu não tenho nada contra religião, não é uma questão de princípio, mas o que se vê são diversos grupos religiosos montando o que eles chamam de “comunidades terapêuticas” que partem do princípio de que só a intenção e a conversão religiosa são fator de cura. A maioria dos casos não tem bom resultado. E por quê? Porque a gente sabe que o melhor tipo de tratamento para a dependência química é feito por uma equipe multidisciplinar. A grande maioria das comunidades terapêuticas não tem equipes para trabalhar com dependentes.
CARTA MAIOR: O relatório do Conselho Federal de Medicina sobre as clínicas de tratamento para drogados é impressionante.
SILVEIRA: O relatório é dramático. E é verdadeiro. No relatório tem até denúncias de abuso, espancamento, maus-tratos a pacientes, ou seja, não são pessoas minimamente capacitadas para darem conta do problema que estão lidando com os usuários nesses lugares.
CARTA MAIOR: Isso acaba sendo a reintrodução do manicômio, mas para dependente químico?
SILVEIRA: Exatamente. A Lei Antimanicomial vai por água abaixo, porque o sistema manicomial está voltando sob a justificativa de que a droga demanda uma intervenção urgente. E isso não é verdade.
CARTA MAIOR: Isso está sendo um motivo de discórdia grande dentro da sua área de especialidade? Não faz muito tempo, a luta pela Lei Antimanicomial foi abraçada como uma luta pelos Direitos Humanos.
SILVEIRA: E a lei foi um ganho muito importante. Só vou abrir parênteses nessa questão: eu não sou contra a internação, eu interno meus pacientes, mas apenas quando eles precisam. Eu não interno por questão social, ou porque a família está me pressionando, ou porque não se aguenta o paciente em casa. Os abusos que se cometiam nessas internações, isso acho intolerável, se internava muito mais do que era necessário. Hoje em dia se interna ainda, é importante ter espaços de internação, mas é para casos excepcionais, não para a regra. É para surto psicótico ou risco de suicídio. Ponto. Não tem outra aplicação.
CARTA MAIOR: Dos programas que estão sendo anunciados por município, Estados e União, tem algum que não assume essas orientação da internação compulsória?
SILVEIRA: Os programas de intervenção mais eficazes para dependentes são os que adotam o modelo ambulatorial, onde o paciente aprende a se manter abstinente convivendo em sociedade, com a ajuda de uma equipe multidisciplinar. Essa proposta estaria plenamente contemplada nas orientações do Ministério da Saúde e dentro da filosofia do Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS), e existe um número mínimo de CAPS para fazer esse trabalho. O problema, no entanto, são as equipes dos CAPS – falta gente e falta gente bem treinada. Existem exceções, é lógico, como o da Água Funda, um modelo que deu muito certo. Porque não é desumano.
CARTA MAIOR: Ainda assim os resultados são melhores do que a internação compulsória?
SILVEIRA: Em regra, os melhores resultados, em relação à dependência química, giram em torno de 35% a 40%, contra os 2% da internação compulsória. Os que sobram, de 60% a 65%, no entanto, não podem ser apenas considerados um fracasso e pronto. O que nós aprendemos nos últimos anos é que mesmo as pessoas que não conseguem ficar em abstinência podem se beneficiar de política de redução de danos. Esse usuário pode não vai ficar completamente abstinente, não vai parar, mas vai se drogar com uma frequência menor, em circunstâncias de menos risco. Do ponto de vista da saúde pública, é um avanço se esse usuário for mantido em condições de estudar, trabalhar, levar uma vida normal.
CARTA MAIOR: A internação ajuda a desintoxicação inicial, ao menos?
SILVEIRA: A desintoxicação não precisa ser feita na internação, e se as pessoas forem internadas, o ideal é que não ultrapasse os 90 dias. Para a grande maioria das pessoas, é possível fazer a desintoxicação com medicamentos que tiram a crise de abstinência. Elas podem levar vida normal. Isso já é possível com o avanço da medicina. Os CAPS-AD (específicos para dependentes de álcool e drogas) têm esse tipo de medicação, mas poucas equipes capacitadas a administrá-las.
CARTA MAIOR: Se as diferenças de resultado são tão grandes, por que ainda se defende a internação?
SILVEIRA: As causas para defesa da internação não são nada nobres. Em primeiro lugar, acho que a ação feita na Cracolândia foi uma mera ação política e midiática. Para uma população menos informada, a impressão que se tem, numa ação policial como essa, é que o poder público está desempenhando muito bem suas funções. A grande maioria das pessoas que defende a internação compulsória ou é despreparada, ou é de médicos que têm interesses econômicos nisso. Como o SUS (Sistema Único de Saúde) não tem leitos para atender uma demanda dessa, vai ter que contratar leitos de hospitais particulares. E isso interessa a muitos médicos.
CARTA MAIOR: O lobby das clínicas é pesado, então?
SILVEIRA: A atual gestão do Ministério da Saúde é muito séria e está tentando fazer o melhor possível, mas enfrenta uma série de problemas. O pior deles é, de fato, o grande lobby da comunidade terapêutica para drogados junto ao SUS. O Ministério está sendo obrigado a engolir goela abaixo essas pressões, em prejuízo de seu próprio projeto, que é muito mais eficiente.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Murar o Medo
É bom refletirmos sobre o nosso papel de agente ativo da história, de nossa história, se é que o somos, e onde nos encaixamos neste contexto. Belissimo texto do escritor de Moçambique Mia Couto para ecoar em nosso universo intimo.Um abraço, Claúdio.
MURAR O MEDO
Mia Couto
O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.
O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.
O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.
A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. Para responder às novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.
Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de "eles".
Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos - como cidadãos e como espécie - em permanente limiar de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.
Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas incomodas como estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia, são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?
Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial - teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.
Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte de nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.
A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética e nem de legalidade.
É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo, muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Eduardo Galeano escreveu sobre o medo global:
"Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.
E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.
http://www.animalsapiens.blogs.sapo.pt/
http://www.oficinadesociologia.blogspot.com/
MURAR O MEDO
Mia Couto
O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.
O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.
O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos.
A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. Para responder às novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder.
Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de "eles".
Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos - como cidadãos e como espécie - em permanente limiar de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa.
Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas incomodas como estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia, são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça?
Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial - teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.
Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte de nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres.
A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética e nem de legalidade.
É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo, muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Eduardo Galeano escreveu sobre o medo global:
"Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.
E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.
http://www.animalsapiens.blogs.sapo.pt/
http://www.oficinadesociologia.blogspot.com/
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Reforma do Congresso
Boas Propostas estas do Frei Betto, vamos encampar e passar para os nossos amigos,Um abraço.
Cláudio.
Lei de Reforma do Congresso de 2011 (emenda da Constituição)
Cláudio.
Lei de Reforma do Congresso de 2011 (emenda da Constituição)
1. O congressista será assalariado somente durante o mandato. E não terá aposentadoria somente pelo mandato.
2. O Congresso contribui para o INSS - Toda a contribuição (passada, presente e futura) para o fundo atual de aposentadoria do Congresso passará para o regime do INSS imediatamente. O Congresso participa dos benefícios dentro do regime do INSS exatamente como todos outros brasileiros. O fundo de aposentadoria não pode ser usado para qualquer outra finalidade.
3. Congresso deve pagar seu plano de aposentadoria, assim como todos os brasileiros.
4. Congresso deixa de votar seu próprio aumento de salário.
5. Congresso perde seu seguro atual de saúde e participa do mesmo sistema de saúde do povo brasileiro.
6. O Congresso deve igualmente cumprir todas as leis que impõe ao povo brasileiro.
7. Servir no Congresso é uma honra, não uma carreira. Cumprido o mandato, devem ir para casa e procurar emprego, como todo e qualquer brasileiro. Ex-congressista não pode ser um lobista.
Se cada pessoa repassar esta mensagem para um mínimo de vinte pessoas, em três dias a maioria das pessoas no Brasil receberá esta mensagem. A hora para esta emenda na Constituição é AGORA.
É ASSIM QUE TAMBÉM PODEMOS CONSERTAR O CONGRESSO. Se você concorda com o exposto, REPASSE, Se não, basta apagar.
Você é um dos meus 20. Mantenha esta mensagem CIRCULANDO.
Direitos Humanos:uma reflexão
Como proposto, terminamos aqui esta pequena reflexão sobre o tema, teremos outras, sugiro a leitura a quem se interessar do livro:
A autora, quando nos diz que a noção dos Direitos Humanos nos trouxe, uma sucessão de “gêmeos malignos”, nos faz refletir sobre os sentimentos ambíguos e contraditórios, que norteiam, as respostas que devemos dar, quando esses mesmos direitos são de alguma forma desrespeitados.
É importante, no meu entendimento, que ao passar de simples críticos do desrespeito aos direitos humanos por parte do Estado, nos tornamos agentes ativos, de crueldades e violências, nos vimos no centro da reflexão sobre direitos humanos, já que agora somos nós os assassinos, os torturadores, os racistas, os homofóbicos,que muitas vezes nos arvoramos no direito de possuir o outro, para satisfazer o nosso desejo, seja ele qual for.
Entendo que realmente a empatia,não acabou, mas no mundo moderno, na era da internet, da informação sem formação, existe toda uma geração, que se desumaniza, por que não foi educada, para dar nome aos seus sentimentos e que cada vez mais mantem relacionamentos virtuais e sem, a experiência do pessoal, do humano. Nesse contexto, acredito eu, que a noção de direitos humanos, também se perde, pois as instituições que os protegem, ou deveriam, se preocupam, muito mais com a geopolítica, do que com a educação. A noção de direitos humanos deveria se aprender nas escolas, no ensino fundamental, juntamente com princípios morais, éticos e filosóficos.
Podemos iniciar, uma reflexão sobre direitos humanos,não só do ponto de vista jurídico, mas da alteridade, do aprendizado com as diferenças. È o diferente que nos faz criativos. Até a próxima.
Cláudio Cesar Mendes – Pós Graduando em Direitos Humanos, Teoria e Filosofia do Direito.
“A invenção dos Direitos Humanos: uma história” da historiadora Lynn Hunt
A autora, quando nos diz que a noção dos Direitos Humanos nos trouxe, uma sucessão de “gêmeos malignos”, nos faz refletir sobre os sentimentos ambíguos e contraditórios, que norteiam, as respostas que devemos dar, quando esses mesmos direitos são de alguma forma desrespeitados.
É importante, no meu entendimento, que ao passar de simples críticos do desrespeito aos direitos humanos por parte do Estado, nos tornamos agentes ativos, de crueldades e violências, nos vimos no centro da reflexão sobre direitos humanos, já que agora somos nós os assassinos, os torturadores, os racistas, os homofóbicos,que muitas vezes nos arvoramos no direito de possuir o outro, para satisfazer o nosso desejo, seja ele qual for.
Entendo que realmente a empatia,não acabou, mas no mundo moderno, na era da internet, da informação sem formação, existe toda uma geração, que se desumaniza, por que não foi educada, para dar nome aos seus sentimentos e que cada vez mais mantem relacionamentos virtuais e sem, a experiência do pessoal, do humano. Nesse contexto, acredito eu, que a noção de direitos humanos, também se perde, pois as instituições que os protegem, ou deveriam, se preocupam, muito mais com a geopolítica, do que com a educação. A noção de direitos humanos deveria se aprender nas escolas, no ensino fundamental, juntamente com princípios morais, éticos e filosóficos.
Podemos iniciar, uma reflexão sobre direitos humanos,não só do ponto de vista jurídico, mas da alteridade, do aprendizado com as diferenças. È o diferente que nos faz criativos. Até a próxima.
Cláudio Cesar Mendes – Pós Graduando em Direitos Humanos, Teoria e Filosofia do Direito.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Direitos Humanos:uma reflexão
Bom Pessoal, continuando a refletir um pouco mais sobre o tema, como prometido.
Essa afirmação da autora, nos remete, aos dias de hoje, quando nossa humanidade continua sendo maleável, como sempre foi. Os últimos acontecimentos, das ultimas décadas, mostra que os direitos humanos são vistos de pontos de vista, bem diferentes, quando se trata do Ocidente e do resto do mundo.
Do ponto de vista filosófico, moral e ético, devemos evoluir muito nos que diz respeito aos direitos humanos, como sendo possível de ser efetivado em todo o mundo. O desrespeito aos direitos humanos, gerados por nacionalismos exacerbados, racismo biologicamente “justificado”, a desigualdade entre homens e mulheres, não são novidade em nossa história, que é cíclica, e demonstra haver, um certo retrocesso, haja vista, a ascensão de partidos de direita mais conservadora, principalmente na Europa, de forte cunho racista, contra imigrantes, pobres e marginalizados. Um exemplo é o surgimento de grupos homofóbicos respaldados muitas vezes pelo
enviesado e complacente olhar do Estado. É de se pensar: não estaríamos jogando fora, séculos de algum pensamento humanista, e até mesmo direitos conquistados a duras penas, entre eles alguns “direitos humanos”, por causa deste retrocesso, ou é a história, mais uma vez dando um salto para nos aprimorarmos? (Continua) Um abraço, Cláudio
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