Paulo Roberto Santos é Sociólogo e um grande pensador, devemos ouvir os ecos dos textos de pessoas como ele.Um abraço, Cláudio.
OS PERIGOS DA CIDADANIA ATIVA *
Paulo R. Santos
Ser cidadão ou cidadã, de fato e de direito, é perigoso? Sim. Tanto no Brasil como em qualquer outra parte do planeta. Afinal, fazer valerem direitos e respeito a costumes socialmente determinados, a leis que equilibram a convivência social, sempre vão esbarrar em interesses de casta, classe e, principalmente, em interesses pessoais.
Chico Mendes é atualmente lembrado e celebrado como um homem exemplar na defesa da Amazônia, do meio ambiente, dos direitos dos pequenos diante dos abusos e da tirania dos grandes e poderosos. Foi indiretamente ameaçado. Recebeu recados de que sua vida estava em perigo. Fez denúncia à Polícia, ao Ministério Público, mas só foi levado a sério depois de ter sido encontrado morto, com o peito cheio de chumbos de uma espingarda de grosso calibre.
Chico Mendes morreu por aquilo em que acreditava. Morreu por seus ideais, por causa de sua determinação, de sua ousadia em enfrentar os donos do negócio (o negócio, neste caso, é a Amazônia e suas riquezas naturais). Morreu por reclamar menos e fazer mais. A isso se denomina cidadania ativa.
Cidadania não se resume a um status jurídico. Um direito outorgado pelo Estado a partir de uma determinada idade. Cidadania é, sobretudo, uma escolha moral, e essa escolha pode acontecer em qualquer idade. Independe de sexo, etnia, idade, religião, grau de escolaridade, vida urbana ou rural.
Cidadania é um estado de alma. Um comprometimento com a vida coletiva, com o bem-estar de todos e de todas. A cidadania está colada à solidariedade e aos direitos para todos e para todas. Direitos e não privilégios. Os poderosos de todos os tempos defendem seus supostos privilégios de classe ou casta, e os revolucionários (ou cidadãos ativos) de sempre, morrem pela preservação ou conquista de direitos.
A cidadania passiva é conveniente para a democracia liberal-burguesa. Afinal, uma vez a cada quatro (ou dois) anos vamos às urnas para sacramentar o que já está decidido no topo da pirâmide do poder. Ainda assim, o voto é um meio de mudar os rumos da vida coletiva sem derramamento de sangue, ... mas depende de cidadãos ativos, atentos ao que de fato acontece na vida coletiva.
A cidadania ativa é cotidiana e, por isso mesmo, perigosa. Exige o enfrentamento das mazelas sociais, da corrupção, dos desmandos, dos maus tratos produzidos por aqueles que deveriam atender bem ao cidadão. Exige posicionamento sobre assuntos controversos, que se admita o contraditório, que se treine a convivência entre diferenças e divergências dentro dos limites das leis do país e dos costumes.
A cidadania passiva é complacente, omissa e conivente, e seus adeptos sofrem da “síndrome de Pilatos” (“Isso não e comigo!”). Lavam as mãos diante de tudo que lhes afeta a rotina ou lhes fira algum interesse pessoal.
A cidadania ativa é perigosa porque exige exposição pessoal, a denúncia e a renúncia. Só pode ser levada a efeito por aqueles que estão dispostos a sofrer (ou a morrer) pelo que é justo e bom para todos. São muitos os casos na história. Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King Jr., Chico Mendes, ... e muitos outros e outras, conhecidos e anônimos que, aliás, são maioria.
Reclamar e terceirizar responsabilidades ou ações não muda os rumos das coisas. Basta ver como anda a vida social na atualidade. Os indicadores crescentes de homicídios, suicídios, linchamentos, violências de todos os tipos, não serão reduzidos pelo poder público, fragilizado, leniente e contaminado pelo crime organizado. Os membros conscientes da sociedade civil terão que aliar-se aos 'engajados' para reverter, quanto possível, a curva ascendente da decadência social.
Este blog pretende, através de textos, imagens, e demais possiblidades, refletir o mundo ao nosso redor, sempre com o intuito de desenvolver o melhor que há em nós, para contribuir, para refletir e transformar o nosso entorno, através da politica, da filosofia, buscando sempre a alteridade, o respeito às diferenças, como forma de alcançar este intento.Um abraço, Cláudio.
quarta-feira, 28 de março de 2012
terça-feira, 27 de março de 2012
ZONA DE CONFORTO
Olá amigos,este texto de meu amigo Paulo R. Santos é muito bom para nos situarmos neste mundo em que vivemos, vamos refletir? Um abraço, Cláudio
ZONA DE CONFORTO
Paulo R. Santos
“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.
Martin Luther King
Nunca antes a vida teve tão pouco valor. Não me refiro apenas à vida humana, mas de todos os seres sobre a terra, plantas e animais inclusive. E nunca antes a frase do reverendo M. Luther King teve tanta atualidade, considerando que, mesmo com as exceções, como o movimento dos 'Indignados', Wikileaks/Assange, Anonymous e outros, a quantidade dos que estão quietos em sua zona de conforto é muito grande.
Em recente entrevista pela TV, o psicanalista Flávio Gikovate disse que metade da população humana está com o equipamento emocional incompleto. Falta senso moral. Pessoas que cometem todos os tipos de erros e barbaridades, do homicídio à aparentemente simples omissão, sem sentimento de culpa. Essa ausência do sentimento de culpa, de compromisso com o todo, é a questão. É o 'deixa como está para ver como é que fica', e enquanto isso coisas ruins acontecem.
Não se trata de assumir individualmente as dores do mundo e sair por aí, quixotescamente, como um salvador da pátria, mas apenas de ter consciência de que algo está muito errado com nossa sociedade e que precisamos mudar isso. Somos a causa e somos também a solução.
A verdade é que estamos nos acostumando com a tragédia do cotidiano. O filósofo Ortega y Gasset afirmou que a vida é drama. Sem dúvida ! Mas mesmo um drama pode ser vivido com dignidade. O sociólogo Max Weber atribuiu boa parte dos desarranjos e sofrimentos da sociedade à dessacralização (ele chamou de desencantamento) do mundo. Visto por esse ângulo, o mundo e tudo o que ele contém se torna “coisa” e nada mais. Karl Marx também já havia tratado do assunto décadas antes.
Apesar dos avisos e alertas dos pensadores de várias tendências e épocas, chegamos ao ponto em que nos encontramos atualmente: diante do crescimento da violência sob várias formas, da incerteza quanto ao futuro, da falta de valores que sustentem nosso dia a dia, da ausência de sentido e de propósito da existência.
A tragédia humana se amplia na forma de violência contra si, contra o 'outro' e contra a sociedade. A entrada em cena desse novo ator social chamado “multidão” gera alguma esperança, já que cada vez mais pessoas se convencem de que nem políticos, nem religiosos vão resolver problemas coletivos ou individuais. A ausência de lideranças nesses novos movimentos horizontaliza as ações e inibe a cooptação por parte de partidos e religiões.
Ainda assim, é preciso aumentar o número de ativistas, dos atuantes de alguma forma, retirando mais gente de sua zona de conforto e de falsa segurança, da covardia moral e da falta de compromisso com os interesses coletivos.
ZONA DE CONFORTO
Paulo R. Santos
“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.
Martin Luther King
Nunca antes a vida teve tão pouco valor. Não me refiro apenas à vida humana, mas de todos os seres sobre a terra, plantas e animais inclusive. E nunca antes a frase do reverendo M. Luther King teve tanta atualidade, considerando que, mesmo com as exceções, como o movimento dos 'Indignados', Wikileaks/Assange, Anonymous e outros, a quantidade dos que estão quietos em sua zona de conforto é muito grande.
Em recente entrevista pela TV, o psicanalista Flávio Gikovate disse que metade da população humana está com o equipamento emocional incompleto. Falta senso moral. Pessoas que cometem todos os tipos de erros e barbaridades, do homicídio à aparentemente simples omissão, sem sentimento de culpa. Essa ausência do sentimento de culpa, de compromisso com o todo, é a questão. É o 'deixa como está para ver como é que fica', e enquanto isso coisas ruins acontecem.
Não se trata de assumir individualmente as dores do mundo e sair por aí, quixotescamente, como um salvador da pátria, mas apenas de ter consciência de que algo está muito errado com nossa sociedade e que precisamos mudar isso. Somos a causa e somos também a solução.
A verdade é que estamos nos acostumando com a tragédia do cotidiano. O filósofo Ortega y Gasset afirmou que a vida é drama. Sem dúvida ! Mas mesmo um drama pode ser vivido com dignidade. O sociólogo Max Weber atribuiu boa parte dos desarranjos e sofrimentos da sociedade à dessacralização (ele chamou de desencantamento) do mundo. Visto por esse ângulo, o mundo e tudo o que ele contém se torna “coisa” e nada mais. Karl Marx também já havia tratado do assunto décadas antes.
Apesar dos avisos e alertas dos pensadores de várias tendências e épocas, chegamos ao ponto em que nos encontramos atualmente: diante do crescimento da violência sob várias formas, da incerteza quanto ao futuro, da falta de valores que sustentem nosso dia a dia, da ausência de sentido e de propósito da existência.
A tragédia humana se amplia na forma de violência contra si, contra o 'outro' e contra a sociedade. A entrada em cena desse novo ator social chamado “multidão” gera alguma esperança, já que cada vez mais pessoas se convencem de que nem políticos, nem religiosos vão resolver problemas coletivos ou individuais. A ausência de lideranças nesses novos movimentos horizontaliza as ações e inibe a cooptação por parte de partidos e religiões.
Ainda assim, é preciso aumentar o número de ativistas, dos atuantes de alguma forma, retirando mais gente de sua zona de conforto e de falsa segurança, da covardia moral e da falta de compromisso com os interesses coletivos.
terça-feira, 13 de março de 2012
Oscar Niemayer e Brasilia
FRASE DA SEMANA- Niemayer dá show!
Aniversário de 102 Anos!
Descrição: cid:A3297CDCBB0A4C75B51A110626C86EC2@Rachel
"Projetar Brasília para os Políticos que vocês colocaram lá, foi como criar um lindo vaso de flores prá vocês usarem como pinico. Hoje eu vejo, tristemente, que Brasília nunca deveria ter sido projetada em forma de avião, mas sim de Camburão"
(Oscar Niemayer)
Aniversário de 102 Anos!
Descrição: cid:A3297CDCBB0A4C75B51A110626C86EC2@Rachel
"Projetar Brasília para os Políticos que vocês colocaram lá, foi como criar um lindo vaso de flores prá vocês usarem como pinico. Hoje eu vejo, tristemente, que Brasília nunca deveria ter sido projetada em forma de avião, mas sim de Camburão"
(Oscar Niemayer)
sexta-feira, 2 de março de 2012
Crack, epidemia de desinformação
Boa para reflexão sobre um problema cada vez mais próximo de nós.
Crack, epidemia de desinformação
By
admin
– 29 de fevereiro de 2012
Por que certas estatísticas exageram a incidência da droga, enquanto minimizam as do álcool. Quais as alternativas ao inferno das “comunidades terapêuticas”
Por Joana Moncal, Júlio Delmanto e Spensy Pimentel | Foto: Danilo Ramos, em Revista do Brasil
Estudantes, representantes de movimentos sociais, agentes pastorais e intelectuais comeram embalados por samba e forró ao vivo. Nos bares, dançava-se Racionais MCs. Os discursos eram raros e curtos, nada de comício. O churrasco daquele sábado, 14 de janeiro, apenas marcava a solidaridade à bola da vez na repressão policial em São Paulo, os usuários de drogas da área conhecida como “Cracolândia” – alvo de desastrosa operação da polícia paulista, a Ação Integrada Centro Legal, ou Operação Sufoco. A noite chegava, as pessoas se dispersavam e os usuários de crack e outros moradores de rua não usuários, também alvos da ação policial, se despediam.
“Agora, vocês vão embora, a madrugada chega, e o jogo começa outra vez”, dizia um deles. “A gente sabe que em mais umas semanas isso termina. Eles já conseguiram o que queriam, saiu na televisão.” A resignação com o absurdo da situação é mais um sintoma da falência do modelo de repressão às drogas. Como já deve ter percebido qualquer pessoa que tem na família ou entre os amigos algum caso de uso problemático dessas substâncias, violência é o que menos resolve. “A operação é voltada para o cuidado com o lugar, e não com as pessoas em estado de vulnerabilidade”, define Daniela Albuquerque, da Defensoria Pública de São Paulo, atuante no caso das operações policiais na Cracolândia.
“Esse interesse em uma ‘solução’ chega movido por politicagem na época da eleição, e nunca por motivos de ordem técnica, humanitária”, critica o psiquiatra Raul Gorayeb, 62 anos. Com mais de três décadas de experiência profissional em saúde mental, Gorayeb assessorou Secretarias de Saúde em níveis municipal e estadual.
Hoje, coordena o Centro de Referência da Infância e da Adolescência, no Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo. “Está todo mundo interessado em tirar dividendos políticos. Virou moda, a mídia ajuda. Um pouco antes do crack, era a questão de tirar as crianças de rua das ruas. Mais atrás, era a Febem. Sempre se trata de promover algum barulho”, completa.
Números?
Não dá para tirar a razão do psiquiatra e dos usuários ouvidos quando se analisa o que, de fato, justificaria o crack ter se tornado assunto da vez. A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), do Ministério da Justiça, não dispõe de números atualizados para mapear a dimensão real de sua expansão no país. A pesquisa mais recente disponível sobre o tema é o Relatório Brasileiro sobre Drogas de 2009, organizado pela Senad, mas os dados sobre o crack são de 2005. Atualmente, o governo corre contra o tempo para aprimorar seu diagnóstico. Um olhar um pouco mais criterioso sobre o que há disponível tem algo de estranho.
Por exemplo, a Confederação Nacional dos Municípios divulgou, em 2011, uma pesquisa segundo a qual 98% das cidades analisadas dizem enfrentar problemas com o crack. O estudo foi baseado em questionários enviados às prefeituras, com perguntas como: “Seu município enfrenta problemas relacionados ao consumo de drogas? Caso sim, qual: crack ou outras drogas?” Certamente o método influencia o resultado, considerando-se que a CNM é uma associação que realiza a intermediação entre governo federal e prefeituras, sempre em busca de verbas.
O que os números mais confiáveis mostram é que o álcool – droga lícita – continua sendo o que mais problemas causa: foi responsável, em 2007, por 83% das mortes (6.500) e por 69% das internações (95 mil) decorrentes de transtornos mentais e comportamentais pelo uso de drogas. No mesmo período, a incidência do crack sobre esses índices, de tão pequena, não mereceu menção na pesquisa da Senad.
“O crack não é a substância psicoativa que mais deveria ser tema de debate no Brasil, e sim o álcool. Mas, como está muito relacionado a um contexto de pobreza extrema, marginalização e ocupação de espaço público, a própria existência do seu consumidor é menos suportável”, afirma o antropólogo Maurício Fiore, integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip), formado por pesquisadores da área de ciências humanas.
É certo que têm aparecido dados sobre seu uso em lugares onde a opinião pública nem imagina (leia reportagem à página 22), mas, por enquanto, é preciso precaução. “O consumo de crack se disseminou pelo país e, ao que parece, teve um aumento razoável nos últimos anos. Mas não se trata de epidemia, e sim do fato de seu consumidor, por uma série de fatores, incomodar mais os olhos”, diz Freire.
O plano
Com pressões de todos os lados, o governo anunciou em dezembro o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, com previsão de investimentos de R$ 4 bilhões. São recursos para a prevenção ao uso, tratamento e reinserção social de usuários e enfrentamento do tráfico de crack e outras drogas ilícitas. O ponto mais polêmico diz respeito à destinação de recursos para criação de leitos nas chamadas “comunidades terapêuticas” – centros de internação para tratamento de dependentes.
Para o Conselho Federal de Psicologia (CFP), esse é um fator de alerta. “O plano se mostrou pouco inovador e, com a inclusão das comunidades terapêuticas como dispositivos do Sistema Único de Saúde, levanta-se a preocupação de que isso possa se constituir no retorno da lógica manicomial, que segrega e isola o indivíduo das suas relações sociais, familiares e do seu território cultural”, aponta o órgão, em nota divulgada recentemente.
“Muitos jovens que atendi foram moradores de comunidades terapêuticas por um tempo. As atrocidades que me contaram a que eram submetidos lá dentro são de arrepiar”, conta o psiquiatra Gorayeb. Relatório do CFP revela uma série de violações aos direitos humanos em clínicas de tratamento de usuários em todo o país. Movimentos ligados ao debate sobre a descriminalização das drogas também têm se juntado a uma campanha contra o repasse de verbas públicas para essas clínicas, frequentemente ligadas a grupos religiosos e políticos, e de resultados duvidosos.
São questionadas ainda outras ações tomadas em nome do combate ao crack. Em especial, a já mencionada Operação Sufoco em São Paulo, cuja premissa expressa pelo coordenador de Políticas sobre Drogas do governo paulista, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, era levar “dor e sofrimento” aos dependentes para que busquem tratamento.
E a internação compulsória de crianças e adolescentes em situação de rua com alto grau de dependência química, em vigor no Rio de Janeiro.
“Internações forçadas só se justificam pontualmente, por um breve período e quando há risco de morte, por exemplo”, diz a defensora Daniela Albuquerque. “Experiências na área da saúde demonstram que a internação contra a vontade do paciente tende a ser ineficaz. A adesão ao tratamento é elemento fundamental.”
Que fazer?
O fato é que o país tem poucas respostas. Embora seja reconhecida como droga violenta e destrutiva, o crack não é um beco sem saída. Vários casos evidenciam que é possível recuperar-se. Mas não há passe de mágica. “O problema das drogas não é médico na sua origem, é social”, afirma Gorayeb. O bombardeio na mídia é tão forte que, muitas vezes, parece não haver alternativa às internações, o que não é verdade. Há anos, o Sistema Único de Saúde desenvolve tratamentos baseados em atenção multidisciplinar por meio dos Centros de Atendimento Psicossocial para Álcool e Drogas (Caps-AD), com apoio de hospitais para internação em casos de crise, e estruturas da assistência social.
O problema é o déficit crônico de recursos no SUS, além do fato de que os princípios que devem guiar esse atendimento nem sempre são seguidos. “Governos tomaram os Caps para si e impuseram um funcionamento que distorceu seus princípios, que são ótimos”, diz Gorayeb – que já atuou na implementação de Caps desde sua criação.
Em 2006, no início do governo Gilberto Kassab, as ingerências políticas, segundo ele, levaram a seu afastamento da direção de um Caps Infantil no centro de São Paulo. Ele se negou a seguir a ordem da prefeitura de encaminhar as crianças de rua para internação em hospital psiquiátrico. “Estava perto das eleições e havia uma campanha de que deixariam a cidade limpa, uma clara política de higienização. Durante o tempo em que estive lá não internamos nenhuma criança trazida da rua porque não tinham indicação clínica técnica. Fui afastado do cargo.”
Enquanto o setor público sofre com problemas políticos e falta de recursos, as pessoas se viram como podem. O recifense Saint Claer Angeiras, de 27 anos, está sem usar droga há quatro. Apesar de trabalhar e estudar dentro da linha conhecida como redução de danos – que não prima pela abstinência e busca minimizar os efeitos do uso de drogas pelo diálogo com os usuários –, ele diz ter se recuperado da dependência por iniciativa própria.
“Passei meses internado, estive preso, me tratei em clínicas e em Caps, passei por todo tipo de estratégia de recuperação e nenhuma funcionou. Coloquei na balança e pesei dois cenários de como minha vida estaria depois de cinco anos: com ou sem drogas”, relata Saint Claer, acrescentando que qualquer que seja o tipo de tratamento oferecido só funcionará com disposição por parte do dependente.
Desde a morte da mãe, quando tinha 8 anos, Saint Claer viveu na rua e só conseguiu deixar o uso abusivo de crack quando optou por se tratar com afinco. Sofreu bastante por meses, mas superou essa fase, com ajuda dos profissionais de um Caps em Recife, onde inclusive passou a trabalhar. A oportunidade de emprego foi parte fundamental da recuperação, propiciando-lhe nova rotina e outras motivações. Ele integra hoje uma equipe de pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz e faz faculdade de Serviço Social.
Em São Paulo, o Centro de Convivência É de Lei é referência nacional na atuação com usuários de drogas na região central. De acordo com a psicóloga Camila Alencar, a principal característica do trabalho da organização é a busca de vínculos com o usuário. “Construímos junto com ele alternativas a um possível uso abusivo. Na maioria dos casos a ideia não é só cuidar do uso em si, mas dos muitos aspectos que o permeiam. Se você consegue ressignificar esses aspectos, o uso acaba naturalmente se modificando”, aponta Camila.
Por não lidar com as drogas de forma repressiva, a redução de danos costuma ser vista como estratégia complacente, ou até estimulante ao consumo. “Pensar a redução de danos como estímulo a drogas é o mesmo que dizer que a camisinha é um estímulo ao sexo”, refuta a psicóloga. “Não podemos esquecer que é o consumidor o principal atingido por seu uso.”
Livre e espontânea pressão
Assim como Saint Claer, o psicólogo Maurício Cotrim já teve experiências difíceis com a dependência de crack e, uma vez superada, passou a trabalhar no atendimento a pacientes com o mesmo problema. Com pai alcoólatra e mãe “passiva”, Cotrim passou a consumir crack com frequência aos 15 anos, chegando a se sentir “como um rato, praticamente desistindo de viver”. Largou o vício de forma aparentemente pouco usual: após um princípio de overdose, procurou a polícia, que o encaminhou a uma assistente social. Esta, por sua vez, propôs um tratamento em regime de internação, e ele aderiu.
Cotrim rechaça o estereótipo que relaciona o consumo de crack à miséria. “Em consultório ou nas clínicas em que atuo atendo pacientes das mais variadas classes sociais, níveis culturais e tipos de dependência: de um morador de rua ou ex-presidiário ao intelectual com ensino superior ou grande empresário, advogado etc.”
Ele não se alinha ao campo conhecido como redução de danos e diverge de sua repulsa às internações, vistas como necessárias apenas em casos extremos de risco de suicídio ou à saúde de terceiros. “Entendo as questões ligadas à luta antimanicomial, e gostaria muito que na realidade nenhum paciente necessitasse de internação, que todos se tratassem ambulatorialmente, nos grupos de NA e AA, nos consultórios particulares, mas na prática o buraco é bem mais embaixo”, acredita o psicólogo.
Tomando sua própria experiência, e a de seus pacientes, como exemplo, ele questiona a distinção normalmente feita em relação às internações: “Falar em paciente voluntário ou involuntário é muito subjetivo, pois quase nenhum dependente químico ou alcoolista chega a um tratamento, mesmo que por suas próprias pernas, porque quer. Chega ‘por livre e espontânea pressão’, como costumo dizer”.
Mesmo quem trabalha em clínicas particulares, como ele, concorda que, ao contrário do que apregoa o senso comum, a internação pura e simples não é o melhor caminho para tratar o problema. “Cada caso é um, porque cada indivíduo é único. Mas, exceto naqueles que representam um risco extremo para o dependente ou para quem convive com ele, a internação é a última opção.”
Cotrim lamenta, porém, o fato de muitas vezes ser procurado por pacientes que buscam mas não encontram tratamento no sistema público. “A demora em receber alguém para uma simples triagem é absurda”, reclama.
A caminho da saída
A conversa final no churrasco do dia 14, na “Cracolândia” paulistana, é com Lúcio Mauro Pereira Mendez, 37, que conta já ter estado “limpo” do crack por 15 anos. Durante esse período, casou duas vezes e teve três filhos. Aos 34, sofreu uma recaída e, a partir de então, vive em um albergue da prefeitura na região da Luz. Há menos de um mês está em abstinência, na luta para parar. “A filosofia de ‘só por um dia’ funciona”, conta ele, que há duas semanas não recorre ao acompanhamento que vinha tendo na “Cristolândia”, misto de igreja e centro comunitário.
A experiência de Mauro na busca por uma saída é vasta. Ele já frequentou centros do SUS e pelo menos duas clínicas particulares. Ao lembrar de como parou de usar crack da primeira vez, afirma: “A melhor clínica é a mente. Consegui parar por vontade própria, mas com muita ajuda da minha companheira na época”. Sobre a internação compulsória, diz que é o mesmo que ir para a cadeia. “Só traz revolta para o dependente. O que a gente precisa é de afeto, é de alguém que te dê a mão e diga: ‘Por aqui é mais seguro’.”
Mauro já esteve em contato com o trabalho do É de Lei. “Eles dão suporte, apoio moral, passam coisas boas. Você não se sente inferior, mas como alguém da sociedade. O usuário incomoda a sociedade. Há furtos, deselegância na rua, agressão… É difícil conviver com ele, eu sei. Mas somos humanos. Não posso ser hipócrita, fazemos parte da sociedade, mas estamos embaixo dela.” Ele diz que não vê o filho mais novo há dois anos, talvez por um pouco de orgulho próprio. “Não quero que ele me veja assim. É triste não poder andar onde você gosta por ter vergonha de si mesmo.”
Atualmente, Mauro vive um novo relacionamento, acaba de conseguir um emprego e está esperançoso. “Nós precisamos procurar ficar bem, ter um pouco de orgulho próprio. É o que quero para mim e para todos, não é fácil olhar e não ser visto.”
Crack, epidemia de desinformação
By
admin
– 29 de fevereiro de 2012
Por que certas estatísticas exageram a incidência da droga, enquanto minimizam as do álcool. Quais as alternativas ao inferno das “comunidades terapêuticas”
Por Joana Moncal, Júlio Delmanto e Spensy Pimentel | Foto: Danilo Ramos, em Revista do Brasil
Estudantes, representantes de movimentos sociais, agentes pastorais e intelectuais comeram embalados por samba e forró ao vivo. Nos bares, dançava-se Racionais MCs. Os discursos eram raros e curtos, nada de comício. O churrasco daquele sábado, 14 de janeiro, apenas marcava a solidaridade à bola da vez na repressão policial em São Paulo, os usuários de drogas da área conhecida como “Cracolândia” – alvo de desastrosa operação da polícia paulista, a Ação Integrada Centro Legal, ou Operação Sufoco. A noite chegava, as pessoas se dispersavam e os usuários de crack e outros moradores de rua não usuários, também alvos da ação policial, se despediam.
“Agora, vocês vão embora, a madrugada chega, e o jogo começa outra vez”, dizia um deles. “A gente sabe que em mais umas semanas isso termina. Eles já conseguiram o que queriam, saiu na televisão.” A resignação com o absurdo da situação é mais um sintoma da falência do modelo de repressão às drogas. Como já deve ter percebido qualquer pessoa que tem na família ou entre os amigos algum caso de uso problemático dessas substâncias, violência é o que menos resolve. “A operação é voltada para o cuidado com o lugar, e não com as pessoas em estado de vulnerabilidade”, define Daniela Albuquerque, da Defensoria Pública de São Paulo, atuante no caso das operações policiais na Cracolândia.
“Esse interesse em uma ‘solução’ chega movido por politicagem na época da eleição, e nunca por motivos de ordem técnica, humanitária”, critica o psiquiatra Raul Gorayeb, 62 anos. Com mais de três décadas de experiência profissional em saúde mental, Gorayeb assessorou Secretarias de Saúde em níveis municipal e estadual.
Hoje, coordena o Centro de Referência da Infância e da Adolescência, no Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo. “Está todo mundo interessado em tirar dividendos políticos. Virou moda, a mídia ajuda. Um pouco antes do crack, era a questão de tirar as crianças de rua das ruas. Mais atrás, era a Febem. Sempre se trata de promover algum barulho”, completa.
Números?
Não dá para tirar a razão do psiquiatra e dos usuários ouvidos quando se analisa o que, de fato, justificaria o crack ter se tornado assunto da vez. A Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), do Ministério da Justiça, não dispõe de números atualizados para mapear a dimensão real de sua expansão no país. A pesquisa mais recente disponível sobre o tema é o Relatório Brasileiro sobre Drogas de 2009, organizado pela Senad, mas os dados sobre o crack são de 2005. Atualmente, o governo corre contra o tempo para aprimorar seu diagnóstico. Um olhar um pouco mais criterioso sobre o que há disponível tem algo de estranho.
Por exemplo, a Confederação Nacional dos Municípios divulgou, em 2011, uma pesquisa segundo a qual 98% das cidades analisadas dizem enfrentar problemas com o crack. O estudo foi baseado em questionários enviados às prefeituras, com perguntas como: “Seu município enfrenta problemas relacionados ao consumo de drogas? Caso sim, qual: crack ou outras drogas?” Certamente o método influencia o resultado, considerando-se que a CNM é uma associação que realiza a intermediação entre governo federal e prefeituras, sempre em busca de verbas.
O que os números mais confiáveis mostram é que o álcool – droga lícita – continua sendo o que mais problemas causa: foi responsável, em 2007, por 83% das mortes (6.500) e por 69% das internações (95 mil) decorrentes de transtornos mentais e comportamentais pelo uso de drogas. No mesmo período, a incidência do crack sobre esses índices, de tão pequena, não mereceu menção na pesquisa da Senad.
“O crack não é a substância psicoativa que mais deveria ser tema de debate no Brasil, e sim o álcool. Mas, como está muito relacionado a um contexto de pobreza extrema, marginalização e ocupação de espaço público, a própria existência do seu consumidor é menos suportável”, afirma o antropólogo Maurício Fiore, integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Neip), formado por pesquisadores da área de ciências humanas.
É certo que têm aparecido dados sobre seu uso em lugares onde a opinião pública nem imagina (leia reportagem à página 22), mas, por enquanto, é preciso precaução. “O consumo de crack se disseminou pelo país e, ao que parece, teve um aumento razoável nos últimos anos. Mas não se trata de epidemia, e sim do fato de seu consumidor, por uma série de fatores, incomodar mais os olhos”, diz Freire.
O plano
Com pressões de todos os lados, o governo anunciou em dezembro o Plano Integrado de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, com previsão de investimentos de R$ 4 bilhões. São recursos para a prevenção ao uso, tratamento e reinserção social de usuários e enfrentamento do tráfico de crack e outras drogas ilícitas. O ponto mais polêmico diz respeito à destinação de recursos para criação de leitos nas chamadas “comunidades terapêuticas” – centros de internação para tratamento de dependentes.
Para o Conselho Federal de Psicologia (CFP), esse é um fator de alerta. “O plano se mostrou pouco inovador e, com a inclusão das comunidades terapêuticas como dispositivos do Sistema Único de Saúde, levanta-se a preocupação de que isso possa se constituir no retorno da lógica manicomial, que segrega e isola o indivíduo das suas relações sociais, familiares e do seu território cultural”, aponta o órgão, em nota divulgada recentemente.
“Muitos jovens que atendi foram moradores de comunidades terapêuticas por um tempo. As atrocidades que me contaram a que eram submetidos lá dentro são de arrepiar”, conta o psiquiatra Gorayeb. Relatório do CFP revela uma série de violações aos direitos humanos em clínicas de tratamento de usuários em todo o país. Movimentos ligados ao debate sobre a descriminalização das drogas também têm se juntado a uma campanha contra o repasse de verbas públicas para essas clínicas, frequentemente ligadas a grupos religiosos e políticos, e de resultados duvidosos.
São questionadas ainda outras ações tomadas em nome do combate ao crack. Em especial, a já mencionada Operação Sufoco em São Paulo, cuja premissa expressa pelo coordenador de Políticas sobre Drogas do governo paulista, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, era levar “dor e sofrimento” aos dependentes para que busquem tratamento.
E a internação compulsória de crianças e adolescentes em situação de rua com alto grau de dependência química, em vigor no Rio de Janeiro.
“Internações forçadas só se justificam pontualmente, por um breve período e quando há risco de morte, por exemplo”, diz a defensora Daniela Albuquerque. “Experiências na área da saúde demonstram que a internação contra a vontade do paciente tende a ser ineficaz. A adesão ao tratamento é elemento fundamental.”
Que fazer?
O fato é que o país tem poucas respostas. Embora seja reconhecida como droga violenta e destrutiva, o crack não é um beco sem saída. Vários casos evidenciam que é possível recuperar-se. Mas não há passe de mágica. “O problema das drogas não é médico na sua origem, é social”, afirma Gorayeb. O bombardeio na mídia é tão forte que, muitas vezes, parece não haver alternativa às internações, o que não é verdade. Há anos, o Sistema Único de Saúde desenvolve tratamentos baseados em atenção multidisciplinar por meio dos Centros de Atendimento Psicossocial para Álcool e Drogas (Caps-AD), com apoio de hospitais para internação em casos de crise, e estruturas da assistência social.
O problema é o déficit crônico de recursos no SUS, além do fato de que os princípios que devem guiar esse atendimento nem sempre são seguidos. “Governos tomaram os Caps para si e impuseram um funcionamento que distorceu seus princípios, que são ótimos”, diz Gorayeb – que já atuou na implementação de Caps desde sua criação.
Em 2006, no início do governo Gilberto Kassab, as ingerências políticas, segundo ele, levaram a seu afastamento da direção de um Caps Infantil no centro de São Paulo. Ele se negou a seguir a ordem da prefeitura de encaminhar as crianças de rua para internação em hospital psiquiátrico. “Estava perto das eleições e havia uma campanha de que deixariam a cidade limpa, uma clara política de higienização. Durante o tempo em que estive lá não internamos nenhuma criança trazida da rua porque não tinham indicação clínica técnica. Fui afastado do cargo.”
Enquanto o setor público sofre com problemas políticos e falta de recursos, as pessoas se viram como podem. O recifense Saint Claer Angeiras, de 27 anos, está sem usar droga há quatro. Apesar de trabalhar e estudar dentro da linha conhecida como redução de danos – que não prima pela abstinência e busca minimizar os efeitos do uso de drogas pelo diálogo com os usuários –, ele diz ter se recuperado da dependência por iniciativa própria.
“Passei meses internado, estive preso, me tratei em clínicas e em Caps, passei por todo tipo de estratégia de recuperação e nenhuma funcionou. Coloquei na balança e pesei dois cenários de como minha vida estaria depois de cinco anos: com ou sem drogas”, relata Saint Claer, acrescentando que qualquer que seja o tipo de tratamento oferecido só funcionará com disposição por parte do dependente.
Desde a morte da mãe, quando tinha 8 anos, Saint Claer viveu na rua e só conseguiu deixar o uso abusivo de crack quando optou por se tratar com afinco. Sofreu bastante por meses, mas superou essa fase, com ajuda dos profissionais de um Caps em Recife, onde inclusive passou a trabalhar. A oportunidade de emprego foi parte fundamental da recuperação, propiciando-lhe nova rotina e outras motivações. Ele integra hoje uma equipe de pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz e faz faculdade de Serviço Social.
Em São Paulo, o Centro de Convivência É de Lei é referência nacional na atuação com usuários de drogas na região central. De acordo com a psicóloga Camila Alencar, a principal característica do trabalho da organização é a busca de vínculos com o usuário. “Construímos junto com ele alternativas a um possível uso abusivo. Na maioria dos casos a ideia não é só cuidar do uso em si, mas dos muitos aspectos que o permeiam. Se você consegue ressignificar esses aspectos, o uso acaba naturalmente se modificando”, aponta Camila.
Por não lidar com as drogas de forma repressiva, a redução de danos costuma ser vista como estratégia complacente, ou até estimulante ao consumo. “Pensar a redução de danos como estímulo a drogas é o mesmo que dizer que a camisinha é um estímulo ao sexo”, refuta a psicóloga. “Não podemos esquecer que é o consumidor o principal atingido por seu uso.”
Livre e espontânea pressão
Assim como Saint Claer, o psicólogo Maurício Cotrim já teve experiências difíceis com a dependência de crack e, uma vez superada, passou a trabalhar no atendimento a pacientes com o mesmo problema. Com pai alcoólatra e mãe “passiva”, Cotrim passou a consumir crack com frequência aos 15 anos, chegando a se sentir “como um rato, praticamente desistindo de viver”. Largou o vício de forma aparentemente pouco usual: após um princípio de overdose, procurou a polícia, que o encaminhou a uma assistente social. Esta, por sua vez, propôs um tratamento em regime de internação, e ele aderiu.
Cotrim rechaça o estereótipo que relaciona o consumo de crack à miséria. “Em consultório ou nas clínicas em que atuo atendo pacientes das mais variadas classes sociais, níveis culturais e tipos de dependência: de um morador de rua ou ex-presidiário ao intelectual com ensino superior ou grande empresário, advogado etc.”
Ele não se alinha ao campo conhecido como redução de danos e diverge de sua repulsa às internações, vistas como necessárias apenas em casos extremos de risco de suicídio ou à saúde de terceiros. “Entendo as questões ligadas à luta antimanicomial, e gostaria muito que na realidade nenhum paciente necessitasse de internação, que todos se tratassem ambulatorialmente, nos grupos de NA e AA, nos consultórios particulares, mas na prática o buraco é bem mais embaixo”, acredita o psicólogo.
Tomando sua própria experiência, e a de seus pacientes, como exemplo, ele questiona a distinção normalmente feita em relação às internações: “Falar em paciente voluntário ou involuntário é muito subjetivo, pois quase nenhum dependente químico ou alcoolista chega a um tratamento, mesmo que por suas próprias pernas, porque quer. Chega ‘por livre e espontânea pressão’, como costumo dizer”.
Mesmo quem trabalha em clínicas particulares, como ele, concorda que, ao contrário do que apregoa o senso comum, a internação pura e simples não é o melhor caminho para tratar o problema. “Cada caso é um, porque cada indivíduo é único. Mas, exceto naqueles que representam um risco extremo para o dependente ou para quem convive com ele, a internação é a última opção.”
Cotrim lamenta, porém, o fato de muitas vezes ser procurado por pacientes que buscam mas não encontram tratamento no sistema público. “A demora em receber alguém para uma simples triagem é absurda”, reclama.
A caminho da saída
A conversa final no churrasco do dia 14, na “Cracolândia” paulistana, é com Lúcio Mauro Pereira Mendez, 37, que conta já ter estado “limpo” do crack por 15 anos. Durante esse período, casou duas vezes e teve três filhos. Aos 34, sofreu uma recaída e, a partir de então, vive em um albergue da prefeitura na região da Luz. Há menos de um mês está em abstinência, na luta para parar. “A filosofia de ‘só por um dia’ funciona”, conta ele, que há duas semanas não recorre ao acompanhamento que vinha tendo na “Cristolândia”, misto de igreja e centro comunitário.
A experiência de Mauro na busca por uma saída é vasta. Ele já frequentou centros do SUS e pelo menos duas clínicas particulares. Ao lembrar de como parou de usar crack da primeira vez, afirma: “A melhor clínica é a mente. Consegui parar por vontade própria, mas com muita ajuda da minha companheira na época”. Sobre a internação compulsória, diz que é o mesmo que ir para a cadeia. “Só traz revolta para o dependente. O que a gente precisa é de afeto, é de alguém que te dê a mão e diga: ‘Por aqui é mais seguro’.”
Mauro já esteve em contato com o trabalho do É de Lei. “Eles dão suporte, apoio moral, passam coisas boas. Você não se sente inferior, mas como alguém da sociedade. O usuário incomoda a sociedade. Há furtos, deselegância na rua, agressão… É difícil conviver com ele, eu sei. Mas somos humanos. Não posso ser hipócrita, fazemos parte da sociedade, mas estamos embaixo dela.” Ele diz que não vê o filho mais novo há dois anos, talvez por um pouco de orgulho próprio. “Não quero que ele me veja assim. É triste não poder andar onde você gosta por ter vergonha de si mesmo.”
Atualmente, Mauro vive um novo relacionamento, acaba de conseguir um emprego e está esperançoso. “Nós precisamos procurar ficar bem, ter um pouco de orgulho próprio. É o que quero para mim e para todos, não é fácil olhar e não ser visto.”
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